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Sem consenso

Tem razão Pires de Lima. O fenómeno não pode ser explicado à luz da teoria económica. À luz dos melhores economistas, dos prémios Nobel, dos doutores honoris causa, o crescimento de uma economia não se faz sem consumo e sem investimento. Leia-se a Introdução à Economia de Paul Samuelson, para simplificar. Os políticos deviam lê-la. Mas leiam-se também os grandes mestres. Em nenhuma das obras de quem sabe se lê ser possível acontecer em Portugal o que dizem que aconteceu ou está a acontecer. Crescer à medida que se administra austeridade? Nem preciso de ir ter com o professor que me ensinou os princípios básicos de economia.

Luís Martins
12 Nov 2013

Por mim, não vi nada do que dizem estar a acontecer. Antes pelo contrário. Crescer em austeridade é mesmo anormal. Ponto. É milagre, como diz o ministro. Com muita propriedade. No entanto, numa outra parte do seu discurso, nas recentes jornadas parlamentares do PSD e do CDS-PP, o mesmo governante parece ter dúvidas quando alerta para que se evite sobrecarregar, em termos fiscais, tanto empresas como famílias que “vivem do sector privado”. Dito de outro modo, se não se proteger o consumo interno, não há milagre que nos livre de males maiores.
Apesar disso há quem insista que a austeridade é que é boa, mesmo tomada em jejum ou como medicação única e ainda por cima queira – até deseje ardentemente – consenso na sociedade portuguesa quanto à prescrição. Claro que não pode tê-la. Primeiro, porque já foi dito e redito que a medicina não é a indicada e depois porque já não é tempo para discutir eventuais dúvidas sobre o assunto. Mas, pode sempre haver diálogo entre os defensores de causas, embora duvide que nesta matéria haja consenso.
Houve um tempo para que o PEC 4 fosse assinado e não foi. Também houve um tempo para assinar o Passos 1 (o mais acertado seria chamar-lhe de único). Para ser franco, coloco as coisas assim: compreendi e aplaudi que o PSD não tivesse assinado o PEC 4, como agora compreendo e aplaudo que o PS não assine coisa nenhuma com o actual
Governo, nos termos que são propostos. O momento das assinaturas é único e ainda que não tivesse passado, nenhuma assinatura se deve fazer sob pressão. O consenso é importante. A verdade é que ninguém quer submeter-se a uma assinatura de consenso para se entalar. Já lá chegará o tempo para isso. Porquê antecipar esse estado? Houve tempos em que o Governo não passou chapa a ninguém, fez o que lhe apeteceu e mais do que se lhe pedia. Achava que ia ter agora o reconhecimento do “trabalhinho sujo”?
Mas não vejo razão para que não se converse e que as negociações se não façam na sede própria: o Parlamento. É aí a casa da democracia. É aí que os consensos, caso os haja, se devem fazer. Às claras. Também para que o povo veja e ouça. Até porque ninguém deve ficar de fora. Só se assim o quiserem. Mas tem que ser aí, no Parlamento, para que as circunstâncias sejam as mesmas para todos. E à frente de todos há até mais testemunhas. É mais sério um possível acordo. E o seu cumprimento é mais vinculativo para os subscritores. E mais vigiado. Quem falhar não tem refúgio possível. Tem que assumir. Se o não fizer, ficamos todos a saber. Assim, em directo, ao vivo. Sem interferência de terceiros que podem, eventualmente, distorcer a realidade. A bem da verdade, é preferível um desacordo às claras.
Na altura do já célebre PEC 4, Portugal caminhava a passos largos para o abismo, havia que colocar um travão, freios a fundo aos desmandos, até chiar, e se possível mudar de locomotiva. Foi o que aconteceu. Não havia alternativa. Hoje, Portugal está pior, está mais próximo do abismo, a atender ao crescimento da pobreza, à dívida soberana, aos juros que pesam de sobremaneira no Orçamento de Estado e saem do país, sem que isso conte para o défice ou para a diminuição da dívida, antes pelo contrário. Precisamos, hoje, urgentemente, de um timoneiro patriótico, que tire o país do ciclo vicioso da austeridade sem limites e masoquista.




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