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500 anos fazendo o bem

Numa época em que as dificuldades imperam e as posições se radicalizam, parecendo que a escolha dos atores económicos se limita a uma dicotomia entre setor público e setor privado, não será de todo leviano refletirmos sobre um enorme conjunto de instituições de atividade social que perduram há vários séculos praticando a assistência, a ajuda e o reconhecimento. Há pelo menos cinco séculos que várias gerações de homens e mulheres respondem a um compromisso com os mais necessitados desta urbe. Nesta cidade bimilenária, a Santa Casa da Misericórdia de Braga está no cume da comemoração dos seus 500 anos de existência praticando a assistência e a caridade.

Fernando Jorge Colmenero Ferreira
12 Nov 2013

Para além da fé, no caso das instituições ligadas à Igreja, que razões teóricas poderão explicar a longa prática destas organizações? Desde a revolução industrial que a sabedoria assente tem sido a que o setor privado é melhor a gerir e a mudar as organizações do que o setor público. Este postulado é baseado na crença que só a concorrência do mercado livre impele os indivíduos as organizações a inovar e a mudar. As organizações legitimaram a autoridade da gestão e a mudança através da substituição da organização heurística por uma perspetiva científica objetivando o aumento do desempenho e da competitividade, reduzindo a única dimensão da motivação humana à recompensa monetária do trabalhador.
O setor atividade social, cujo primeiro pilar está na não obtenção de lucro económico, encontra inquestionavelmente uma fonte importante de recursos na atividade desprendida das pessoas em prol das organizações e dos seus mais diversos serviços sociais. Torna-se claro que a adoção nestas organizações do poder coercivo e da motivação económica esvaziaria o seu sentido.
Na Escandinávia evoluiu um outro modelo de organização onde pontificavam já a mobilidade social e o empreendedorismo, onde patrões e sindicatos procuravam a cooperação ao invés do conflito. O Estado começava a apostar no sistema educacional como uma garantia de desenvolvimento. Porém, perduravam há longos anos em vários países da Europa ocidental inúmeras organizações sociais, independentes do estado, sobretudo associadas à atividade de assistência e caridade das igrejas, providenciando uma intervenção social, ligadas à educação, saúde e assistência aos mais necessitados.
Hoje, as organizações procuram evoluir para um estado cada vez mais elevado de aprendizagem organizacional, onde a organização alcança a aptidão para se transformar a si mesma continuamente através do desenvolvimento e envolvimento dos seus membros. As organizações de atividade social souberam sempre responder a desafios, enfrentaram e enfrentam uma competição considerável e outras pressões que requerem respostas inovativas. Vivem sobre uma pressão para encontrarem formas de disponibilizarem os seus recursos, enfrentam um crescimento de escolha por parte dos cidadãos, e os fundos governamentais para o serviço social, “cliente” importante deste setor, crescentemente fixam os preços ao nível dos fornecedores de mais baixo custo, limitando a sua capacidade de atuação.
Se a sabedoria tradicional diz que o setor de atividade social tem muito a aprender com o mundo dos negócios, a evidência empírica sugere o oposto. Estas organizações mostram precisamente as competências de gestão que as grandes empresas se esforçam por adquirir, particularmente na adaptação à mudança, e no mundo atual parecem responder melhor à adaptação, por instinto ou pela sua cultura organizacional. São particularmente efetivas em mudarem, mas permanecendo as mesmas. Mudam com o tempo, mas permanecem com a sua história, mas essa história não ofusca as pessoas da organização. Através da indução à aprendizagem, elas integram excecionalmente bem as novas pessoas nas suas tradições e valores, e novas práticas e ideias úteis difundem-se rapidamente. Fundamentalmente, a necessidade de fazer mais com menos, encoraja a iniciativa e a criatividade. As suas estruturas organizacionais pouco rígidas ajudam estas organizações a pensar grande e a atuar pequeno, mas daí são retirados enormes benefícios.
A maioria dos colaboradores das organizações de atividade social é geralmente dedicada. Isso deve-se em grande parte ao comprometimento das pessoas com os objetivos da organização, onde ter valores conta, e mais importante do que se obtém é a forma como é realizado.




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