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Sobre conversas de treta

Parole, parole, parole, parole, parole”, dizia-se numa canção italiana, dos anos 70 do século XX, tornada famosa, na versão francesa, por Dalida e Alain Delon. “Palavras, palavras, palavras, palavras, palavras”. Ou, noutros versos: “Mais palavras, sempre palavras / As mesmas palavras”. A canção, antes interpretada por Mina e Alberto Lupo, poderia muito bem estar a referir-se – mas não era o caso – ao excesso de palavras com que, a todo o instante, nos inundam as criaturas hiperfalantes que abundam nos media. Liga-se uma televisão e lá estão elas. Folheia-se uma revista ou um jornal, a mesma coisa. “Enchem-nos de palavras aqueles cujas ideias são insignificantes”, dizia um slogan antigo, sempre actual, que se podia ler em algumas paredes.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
10 Nov 2013

A um palavroso, qualquer tema serve. Sendo certo que os faladores generalistas não cessam de pulular, também sucede que a especialização contemporânea ditou que, a cada assunto, correspondesse um conjunto específico de palavrosos. Poli ou monotemáticos, eles encontram-se disponíveis vinte e quatro horas por dia para dizer alguma coisa sobre o regresso aos mercados, a necessidade de consenso, o ranking das escolas, o serviço público de radiotelevisão ou um sarilho judicial qualquer.

A palavrosidade, ou, se se preferir, a conversa de treta, tem várias características. A mais óbvia é a vacuidade. A reversibilidade, isto é, a possibilidade de uma frase poder ser dita, com idêntica pertinência, da frente para trás ou de trás para a frente, é uma marca infalível da existência de palavrosidade.

José Pacheco Pereira, no Público da semana passada, seleccionou um conjunto de frases do guião da reforma do Estado em que se podem, sem qualquer prejuízo semântico ou político, trocar a ordem das palavras. “Por exemplo: ‘Reformar o Estado é não desistir da eficiência e reforçar a transparência’, podia ser ‘reformar o Estado é reforçar a eficiência e não desistir da transparência’”.

Há textos que parecem recorrer a geradores de conversa de treta (bullshit generator). Estes mecanismos ao serviço da loquacidade podem ter três, quatro ou cinco colunas, cada uma com palavras da mesma classe (verbos, advérbios, e nomes por exemplo).

Um exemplo muito simples e eficaz: na primeira coluna, colocam–se quatro verbos: melhorar, modernizar, rentabilizar, simplificar. Para a coluna seguinte, seleccionam-se quatro nomes: os meios, os métodos, os procedimentos, os regulamentos. Na última coluna, insere-se: para aumentar a transparência, para proteger os mais desfavorecidos, para tornar mais amigável a economia, para tornar o Estado mais eficiente.

O modo de funcionamento é muito simples. Vai-se buscar uma palavra qualquer a cada coluna, seguindo sempre a mesma ordem. Depois, repete-se uma vez e outra, as vezes que se quiser.
O resultado não é desprezível: É necessário simplificar os procedimentos para tornar mais amigável a economia e rentabilizar os meios para tornar o Estado mais eficiente. Também importa melhorar os regulamentos para aumentar a transparência e modernizar os meios para proteger os mais desfavorecidos. Se rentabilizarmos os meios para tornar o Estado mais eficiente, poderemos modernizar os métodos para tornar mais amigável a economia e simplificar os procedimentos para proteger os mais desfavorecidos. Isto impõe que se modernizem os métodos para tornar o Estado mais eficiente. Quatro simples colunas de palavras são o bastante para se apresentar um programa de reforma do Estado bem jeitoso.

Os geradores de conversa de treta permitem falar desenvoltamente sobre todos os temas. Sobre economia ou empreendedorismo, por exemplo. Peguemos em mais três colunas. Na A, colocamos: agregar, arquitectar, dar poder, explorar, incubar, produzir; na B: aplicações, clientelas, convergência, estruturas, oportunidades, parcerias; e na C: de nichos, de sinergias, fora da caixa, holísticas, robustas, visionárias.

Se se for às diversas colunas buscar palavras, por ordem alfabética, poderemos obter, por exemplo, isto: É necessário arquitectar parcerias robustas para produzir convergências visionárias e explorar estruturas de nichos para dar poder a aplicações holísticas. Assim se irão produzir oportunidades fora da caixa e incubar oportunidades de sinergias. Pode haver quem diga menos do que isto, mas nem todos o dirão de um modo tão impressionante.




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