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Dois velhos conhecidos

Nestes dias soa-lheiros de Novembro já com um cheirinho a Natal, depois de um café no sítio habitual, gosto de deambular pelas ruas do centro e espreitar as novidades das montras. Quase sem que dê por isso, os meus passos guiam-me ao encontro de dois amigos que me aguardam, como sempre, debruçados sobre os passantes do Largo de São João do Souto. Dois velhos conhecidos, altivos e sossegados que, embora nascidos em terras tão distintas e distantes, falam a mesma língua vegetal: um tulipeiro (Liriodendron tulipifera L.) e um ginkgo (Ginkgo biloba L.), com os pés assentes no intramuros da Casa do Passadiço e as copas frondosas arremessadas lá no alto.

Fernanda Lobo Gonçalves
10 Nov 2013

O ginkgo, com as suas belas folhas parecendo pequenos leques, é a única espécie que resta da família das Ginkgoaceae, velha de 270 milhões de anos – de todas as outras espécies desta família, temos apenas os registos fossilizados. É originário da China, de onde chegou à Europa pelas mãos do médico, viajante e naturalista alemão Engelbert Kaempfer, que plantou os primeiros espécimes no jardim botânico da cidade de Utrecht, em finais do séc. XVII. É famoso pela sua extraordinária resistência – alguns exemplares sobreviveram à forte radiação provocada pela explosão atómica em Hiroshima.
O tulipeiro veio do outro lado do mundo – da América do Norte, e é também um ancião digno de respeito da família das Magnoliaceae. Angiospérmica caducifólia de crescimento espectacular, possui grandes flores em forma de tulipa (que vieram a dar o nome à espécie). A sua madeira era usada pelos indígenas das Américas, na construção de canoas. Em Braga, além deste de que vos falo, um outro tulipeiro monumental pode ser admirado nos jardins do Museu dos Biscainhos
Ali irmanados pelo acaso (que é o que, por vezes, chamamos à vontade do Homem), a vestirem-se com as cores garridas e efémeras do Outono, sei que me esperam. E eu, sempre que sol espreita e a ocasião o permite, lá vou visitá-los e fotografar aquela cumplicidade de sentinelas vigilantes do casario da nossa cidade.




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