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Carta aberta aos Filhos do Estado

Pai de afetoAos meus filhos de afeto
Dirijo-vos estas palavras começando para vos pedir desculpa. Quase a completar 50 anos de vida, sinto-me impotente para vos ajudar. De cada vez que tento, tal é o emaranhado legal, institucional e imoral que vos rodeia que não me deixa fazer mais. Peço-vos desculpa por ter um Estado assim no meu país que não cuida dos seus, que reflete mas não faz, que apregoa, mas não concretiza, que decide, mas não finaliza. É verdade! Este é o Estado que exige, que manda, que condena, mas que não faz. Um Estado que vos aprisionou num sistema onde vocês são despejados sem cuidar que são protegidos.

Paulo Sousa
10 Nov 2013

Este é o Estado que paga para não querer saber mais de vocês; que não fiscaliza para não se incomodar e que quando o faz fiscaliza para acomodar a preceito os seus erros, escondendo-os na gaveta. Este é o Estado que temos e por isso escrevo-vos esta carta para vos pedir desculpa, já que ele não o faz. Vocês são os filhos da vergonha, da hipocrisia, do desmando e da incapacidade de quem devia ter a obrigação de fazer mais do que comissões de acompanhamento, Tribunais de Família, criar programas de financiamento social a instituições que se tornaram locais de despejo e que nada quer saber do vosso futuro quando vos abandona à sorte.
Hoje, quando lerem estas linhas, terei provavelmente alguns telefonemas a darem-me os parabéns por ter escrito esta Carta, mas, sabem, duvido que receba algum telefonema do Estado para dizer que estou enganado e que afinal nada do que escrevi é verdade. Pois! Convenhamos que seria bom saber que afinal o Estado sabe assumir os seus erros e que olha para vocês como pessoas com direitos adicionais e que a Declaração Universal dos Direitos do Homem não é apenas um enunciado de intenções e que há quem se preocupe em aplicar o que lá está escrito a pensar na defesa dos vossos direitos.
Sabem, gostava de receber a notícia por esta manhã de que o Estado que vos abandonou afinal não se esqueceu de vocês e que cuidará daqueles que tiveram a infelicidade de serem institucionalizados e que a partir dos 21 anos pouco ou nenhum acompanhamento terão, apesar das boas intenções dos projetos de autonomia. Gostava de saber que têm um futuro e que milhares de jovens em todo o país não são abandonados pelo sistema, pelo Estado, desculpem!
São milhares os relatos dos que passam pelos tribunais, pelas prisões, pelas paredes das cidades e pelos cantos de vão de escada, são milhares os que não tiveram oportunidades de ter um sistema que pensasse neles, que estivesse com eles, que os acompanhasse pela vida fora depois dos 21 anos. Outros tantos tiveram melhor sina, mas desses quis a sorte que encontrassem o caminho.
É por isso, caros(as) filhos(as) do Estado que vos escrevo esta Carta para vos pedir desculpa. Desculpa, porque um país que permitiu que vocês fossem abandonados pela família, que vos institucionalizou e que lava as mãos como Pilatos, não é um país. É um sítio onde se brinca ao faz de conta que há Estado.
PS:
Para quem não saiba ou ande distraído, os filhos do Estado são os meninos e meninas, (hoje jovens adultos) deste país que não tiveram oportunidade de ser adotados ou perfilhados e que se mantiveram institucionalizados até aos 21 anos. Muitos deles viram os seus projetos de vida falharem ou nem tiveram hipótese de aceder a um projeto condigno. Os que tiveram o azar de serem portadores de qualquer deficiência, ainda que não profunda, ficam no limbo.




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