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O essencial e o acessório no jornalismo

Eterno candidato ao Prémio Nobel da Literatura, o italino Claudio Magris, de 74 anos, é um dos mais notáveis escritores italianos da atualidade. Da sua vasta produção literária destaca-se o romance Danúbio, uma verdadeira obra-prima, cuja ação tem por referência uma extensa viagem “europeia” ao longo daquele mágico e famoso rio. Magris veio há dias a Lisboa para receber, das mãos do Presidente da República, o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva. O júri deste galardão destacou a sua “obra notável sobre a identidade europeia, como realidade diversa que se deve preservar”.

Victor Blanco de Vasconcellos
7 Nov 2013

Na verdade, o escritor italiano assume-se “patrioticamente europeu” e defende uma união política maior e mais efetiva do que a atual. Segundo ele, “temos de criar um verdadeiro Estado europeu, federal, descentralizado, com autonomias, mas um Estado com a força de Estado: com leis fundamentais que sejam iguais para todos os países” – e em que os Estados mais ricos sejam solidários com os mais pobres…
Esta visão da Europa é somente uma das faces da personalidade e da ação cívica de Claudio Magris. Outra é expressa nos artigos que o escritor publica regularmente, há quase 47 anos, no jornal italiano Corriere della Sera, sendo, atualmente, o colunista mais antigo deste conceituado jornal. Recentemente, reuniu um conjunto desses artigos de “intervenção” e publicou-os em livro, a que deu o simbólico título de Alfabetos. E aproveitou a sua vinda a Lisboa para lançar essa obra no nosso país.
A propósito deste evento, Claudio Magris concedeu várias entrevistas à imprensa portuguesa. Numa delas refere-se à sua atividade de “homem dos jornais”, para os quais escreve há largas décadas, tendo assistido a grandes metamorfoses nos periódicos. Numa dessas entrevistas revela que o estado atual do jornalismo não se recomenda. Chega mesmo a afirmar o seguinte:
“O que me preocupa mais não é a quebra das vendas mas o declínio da qualidade geral do jornalismo. Em vez de cada publicação procurar uma linha original, todas se copiam. Há uma incapacidade gritante de distinguir o que importa do que não tem importância. E vejo as nossas fontes de informação cada vez mais escravizadas pela ordem do dia e por conceitos prefabricados”.
Claudio Magris acerta na “mouche”. No jornalismo, cada vez mais o essencial é confundido com o acessório. As “manchetes” sobre o recente e sórdido caso Carrilho/Bárbara Guimarães – explorado até à exaustão nas televisões e em jornais ditos “de referência” (“assunto” que até teve honras de subir ao espaço de comentário do Professor Marcelo!!!) – é bem a demonstração do tipo de valores que impera no jornalismo português. Que cada vez mais alinha pelo diapasão romano do “pão e circo”!




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