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Atualizar as fichas

Penso ter sido George Bernard Shaw (1856-1950) quem um dia escreveu ter sido o seu alfaiate a pessoa mais inteligente que conheceu na vida. E justificou: sempre que lá vou, tira-me a medida. Os outros, mediram-me de uma vez para sempre. Penso não exagerar se disser que passamos grande parte da vida a etiquetar pessoas. Mas nem sempre nos damos ao trabalho de atualizar as etiquetas, pelo que corremos o risco de avaliar os outros pelo que já não são.

Silva Araújo
7 Nov 2013

Sem com isto pretender desrespeitar a nobre função da magistratura, estou persuadido de que não nos compete julgar os outros. Isso é com Deus. Só Deus sabe o que as pessoas realmente são e só Deus pode fazer um juízo exato do que cada um é.
Devo dizer, entretanto, que, ao falar do juízo de Deus, creio muito na Sua infinita misericórdia. Se assim não fosse…
Não temos nada que julgar os outros. Mas a verdade é que julgamos. E dos juízos que fazemos talvez resultem mais condenações do que absolvições. Porque nos não larga a tendência de nos fixarmos mais nos aspetos negativos do que nos positivos; mais nos defeitos do que nas virtudes.
Julgamos os outros e catalogamo-los. Este é assim, professa esta religião, simpatiza com este partido político, tem estes gostos e preferências, tem estas manias e estes preconceitos, etc, etc.     
Mas as pessoas mudam. E – Deus seja louvado! – muitas vezes para melhor. Não foi apenas Saulo que, de perseguidor, se converteu em fervoroso apóstolo de Cristo. Conheço gente da direita que principiou na extrema esquerda. Como dizia o outro, há bombeiros que já foram incendiários.
Também há o contrário. O falecido jornalista Jerónimo de Castro costumava dizer que o diabo já esteve no Céu.
Mas vejamos as coisas pela positiva. Pensemos nas Madalenas, nos Pedros, nos Agostinhos. Há realmente pessoas que, tendo tomado consciência dos seus erros, decidem seguir por outro caminho.
Há, todavia, quem duvide dessas mudanças, o que pode ser uma gravíssima injustiça. As conversões são possíveis e são uma realidade.
Também há quem, mesmo acreditando nas conversões, se não dê ao trabalho de atualizar a ficha, julgando as pessoas pelo que foram e não pelo que agora são. Avaliando as pessoas pelo que outrora fizeram e não pelo que agora realmente fazem. E há uma grande verdade a ter em conta: um mau passado pode ser corrigido por um presente bem vivido.
Há quem, teimosamente, viva a olhar para ontem, e dê às pessoas um tratamento que não merecem. Porque as julgam pelo que já não são.
É possível haver gente muito «devota» – e escrevo o vocábulo propositadamente entre aspas – que quotidianamente comunga de terço enroscado nos dedos mas se não atreveria a deixar entrar no Céu o bom ladrão porque ele tinha sido ladrão. Que não confiaria em Pedro porque ele tinha negado o Mestre. Que não acolheria Paulo porque tinha sido cúmplice da morte de Estêvão e perseguidor de cristãos.
Esquecem-se de que esses aspetos negativos tinham sido acidentes na vida das pessoas. O ladrão que rogou a Cristo se lembrasse dele já não era ladrão. O Pedro dos Atos dos Apóstolos já não era o Pedro da noite de Quinta-Feira Santa. O Paulo que foi bater à porta de Ananias já tinha caído abaixo do cavalo.
Que exemplo nos dá o alfaiate de Bernard Shaw se quisermos ser justos para com as pessoas! Temos de andar de fita métrica constantemente na mão e manter as fichas sempre atualizadas. As medidas de ontem não coincidem com as de hoje. Uma coisa é o que as pessoas foram e outra, o que agora são.




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