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A ilusão dos náufragos

Na última crónica esqueci o capitão e os marinheiros em alto-mar. Fixei-me nas suas diatribes enquanto o barco ainda navegava, muito embora à bolina e à vista, e acabei por esquecer que estavam náufragos. Nem eu nem a Carlota fizemos nada. O tema de conversa derivou para aquela coisa do guião e nunca mais nos lembramos, nem eu nem ela, dos ditos que ansiavam por um bote seguro que os trouxesse de novo para terra. Na verdade, a culpa foi toda minha. Só depois de reler a crónica impressa no formato e na disposição para ser lida pelos leitores habituais é que dei conta do sucedido.

Luís Martins
5 Nov 2013

Recordo que a minha colega, em determinada altura da conversa, até queria ajudar, mas eu é que dei outro desenvolvimento ao assunto e assim ficaram esquecidos – os que naufragaram – durante pelo menos três dias. Agora que a questão se coloca de novo, pode perguntar-se: deixá-los lá a penar pelas culpas? Não, isso não! Pedir ajuda e trazê-los para terra? Sim, talvez seja mais humano e racional. Trazê-los para este outro mar. O da realidade revolta em dúvidas, preocupações e medos quanto ao futuro. Além do mais, precisamos de compreender as questões com que nos defrontamos e dar-lhes a oportunidade de se explicarem. Para já, que nos expliquem como é que um orçamento recessivo vai gerar crescimento económico.

Mal refeitos do esforço em trazê-los vivos para a crónica de hoje, anuncia-se a chegada daquilo a que alguém convencionou chamar de guião, embora não o seja de verdade. Não vou repetir as razões já invocadas na semana anterior neste mesmo espaço. Inclino-me a pensar que o Governo não sabe mesmo o que é um guião ou julgará, por certo, que somos todos uns destituídos. Em vez dum guião, o que foi divulgado com pompa, mas sem circunstância nenhuma, foi um texto com um conjunto de generalidades, repisadas do discurso oficial vigente, muitas delas até sem nexo e das quais já percebemos que não produzirão o efeito que os autores querem que produzam por mais que insistam. Além do mais, falta quase tudo ao conjunto para ser chamado pelo nome certo. Faltam objectivos, fundamentação decente, calendário, custos, poupanças, o resultado e outros desígnios. E sobram páginas que não dizem nada do que era suposto, incómodos para Passos Coelho e o seu partido – o dito cujo tem tudo para ajudar a depôr o primeiro-ministro – e uma guerra aberta dentro e fora que pode estar para breve. Basta serem anunciadas as próximas legislativas, que não estarão tão longe assim, atenta a iminência de serem precisas três assinaturas para o próximo resgate ou, para não ser tão severo, de um qualquer programa cautelar. Em vez da rasteira que Passos Coelho julgava ter feito a Paulo Portas ao distribuir a tarefa que este tanto queria para fazer um brilharete e esquecer a crise de verão, será o autor da tese plagiada – por reproduzir a trapalhada que vem sendo dita e redita sem acrescentar nada de substancial – que lhe estenderá uma grande casca de banana que o primeiro terá de atravessar por não ter já outro caminho alternativo.

Entretanto, o Orçamento foi aprovado, apesar de ferido – diz quem sabe– de inconstitucionalidades. Passos Coelho não pára e nós, que escrevemos, não podemos deixar, por dever de cidadania, de nos referirmos a isso. Em relação à pressão sobre o Tribunal Constitucional, convém não esmorecer. Denunciar a inaceitável e até anti-democrática pressão sobre uma Instituição do regime democrático, é um dever que nos é exigido, tantas são as tentativas de violação da lei fundamental do país. Passos Coelho diz que são apenas sub-reptícias, mas isso torna-as ainda mais graves. Outros protagonistas políticos são mais taxativos. Luís Montenegro, por exemplo, ao afirmar que “a sua [do PS] putativa pressão é tão legítima como a nossa”, ao referir-se à suposta pressão do PS, quer significar exactamente que é natural pressionar o Tribunal Constitucional. Por mim, acho que não. A vigilância e a prudência, nas circunstâncias, serão um bom seguro.

 




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