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Sociedade vigiada

Somos uma sociedade vigiada, espiada, olhada por todos os cantos e esquinas. Há câmaras de vídeos que registam as nossas entradas e saídas, outras que nos olham nos portões de algumas moradias e ainda dentro de casa algumas ocultas ou dissimuladas espiam os nossos gestos e as nossas presenças. Parece que para qualquer lugar que nos mexamos lá está o olho eletrónico aposto para nos denunciar. Mas não são apenas as presenças que nos espiam, são também as escutas que se escondem por debaixo dos tapetes dos gabinetes, que se alapam nos suportes dos candeeiros de mesa ou de teto e também as que pela calada da observação, detetivesca parasitam nas escutas telefónicas.

Paulo Fafe
4 Nov 2013

Qualquer dia até no deserto olhamos para as areias com medo que nos escutem. Um dia uma pessoa conhecida foi jogar golfe para combinar com outro um assunto de negócios. Não cuidou de saber se os seus tacos tinham escutas e, como tinham a falta de secretismo, fê-lo perder o negócio. Sempre tudo isto me pareceu mais ficção do que verdade, mas ao ver o que aconteceu a Ângela Merkel, a chancelar alemã, a fazer fé no que relata a revista Der Spiegel,  toda a desconfiança cai por terra e toda a ficção vira realidade. Claro que as ruas tornam-se mais seguras se forem vigiadas e o povo terá de dizer se quer perder a sua liberdade a favor de segurança ou não. Mas isso é assunto para ser perguntado e não para ser resolvido unilateralmente por um qualquer governo ou presidente de câmara. Voltando a Merkel, o que nos impressiona é como os seus adjuntos e as suas estruturas de vigilância da integridade soberana que qualquer estado tem e deve ter, nunca foram capazes de duvidar ou sequer suspeitar que a sua chanceler estava a ser escutada pelos serviços americanos. De duas uma: ou os americanos estão muito sofisticados neste campo de escutas internacionais, via telemóvel, e os alemães muito atrasados, ou houve negligência para não dizer ingenuidade por parte dos germânicos. De qualquer maneira fica mal aos americanos esta atitude de espiões, denotando com esta atitude que não confiam nos “amigos” ou então que vão confiando desconfiando. E pelos vistos outros líderes foram escutados. Esta rede americana tem que ser desmontada porque se torna tão perigosa como o nuclear da Síria, por exemplo. Dever-se-ia formar uma comissão internacional de desmantelamento dos serviços de escutas americanos para se ter a certeza  de que ficaram inoperacionais. Dir-me-ão, a comparação é forte, pois escutar não é uma arma letal. Pois não, mas pode levar a uma supremacia de uma nação contra a outra que venha a ter o mesmo impacto de uma bomba letal. Quem joga com cartas marcadas ganha o jogo. É uma “arma” que não tem sentido e cria um ambiente de guerra fria que é inconsequente com os tempos em que vivemos. Quebra o vaso da amizade. Por mais que depois se colem os cacos as rachadelas veem-se sempre. Vaso partido nunca mais volta a ser o mesmo nem nunca mais tem o mesmo valor. Felizmente que outros países não foram escutados. Certamente porque não valeria a pena escutá-los tal a sua insignificância. Portugal foi um deles. Às vezes por entre as pernas dos grandes, escapulem-se os pequenos.




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