Fotografia:
O Bom Jesus do Monte

Imponente, no deslizar serpenteado por entre frondoso arvoredo encosta acima e no porte altivo do gasto granito que resiste sem lamúrias, aconchegado em degraus, pátios, muros e demais arquitetura, está o escadório do Bom Jesus do Monte! Com início no Pórtico, a longa e sinuosa escadaria é pejada de capelas no seu percurso com as suas caixas de esmolas e locais para colocar velas a arder – símbolos de fé – recheadas de belíssima estatuária sacra esculpida em madeira alusiva à Via-Sacra.

António Fernandes
4 Nov 2013

Em lanços suaves e pátios “atenuadores” de esforço, soberba incrustação na encosta até ao largo da fonte dos cinco sentidos cuja sobranceria de miradouro, intuitivamente, convida a descansar o olhar e o senso, em repouso sobre o verde da paisagem e o colorido multifacetado do casario que se estende pelo vale e se quebra nas encostas onde o mato e a carrasca ainda têm flor.
Lanços de escadarias e pátios que a partir desse local, assumem uma forma simetricamente entrecruzada como que abraçando carinhosamente quem passa e a estatuária sacra diversa abençoam.
Em cada um dos pátios há uma fonte alusiva a um dos sentidos humanos: a audição; o olfato; o paladar, o tato; a visão.
No cimo, surge o adro e o Santuário erigido ao Bom Jesus do Monte. Os bancos em granito, paredes meias com o escadório, e de onde se perscruta a imponente estatuária envolvente e que conta histórias da História e histórias de gente simples e humilde que na construção deste Santuário trabalhou, convidam à reflexão sobre o que à memória no momento ocorre para além da fé que aqui nos traga.
De entre muitas dessas histórias ocorre-me uma: a história do meu avô Manuel.
O meu avô Manuel foi um, entre muitos outros, mestre pedreiro que neste complexo movimento estático da estatuária deixou o seu cunho e parte relevante da sua vida. Algumas destas estátuas que neste local se encontram saíram de toscos rochedos que desbravou a cinzel, ponteiro, mascota, cunhas e marreta.
O meu avô, de nome Manuel Fernandes, era baixote, atarracado pela idade, tez clara e face rosada, nariz adunco, que de palhinha na boca e chapéu de lado à “malandreco”, tinha o gesto ao sabor da conversa e que me dizia:
– Amor à arte? Nunca tive!
– O que tive foi de sustentar um “rancho” de filhos!
Arribo a vista em direção ao centenário elevador, que dizem ser o único no mundo movido a peso de água, e que após toques combinados de sineta entre os seu dois maquinistas, são destravados, descendo um que iça o outro, em hora marcada no Inverno e quando estiver cheio no Verão.
Mais ao lado, o miradouro onde era colocado o monóculo já carcomido pelo tempo diariamente colocado e tirado do sítio. Aquele que tornou famoso o dito: – “Ver Braga por um canudo!”
À minha frente, o Santuário com as suas duas torres onde os sinos dobravam as horas porque se regulavam as gentes da freguesia e de freguesias vizinhas permanecem. Sinos de onde soavam, e conti-
nuam a soar – presumo – o toque para a missa, a rebate, repenicado, batizado, a defunto distinguindo se homem, mulher e anjinho – criança – e outros toques que não me ocorrem.
Hoje em dia, batidos a martelos por equipamento eletrónico, os sinos já não dobram.
Dentro do santuário respira-se o ar de meditação renovando frescura mental e espiritual. O antes, o agora e o depois.
A extensão dos bancos de madeira com apoios para ajoelhar. As colunas. As abóbadas. Os frescos e os vitrais. O altar-mor. A crucificação de Jesus Cristo. Os altares das capelas laterais. A Sacristia.
No adro, um vasto conjunto de estátuas e outras obras de cantaria, em representação de ícones condicentes com o local, destaca e dá cunho indelével.
Sigo em direção ao casino, que de casino só tem o nome. Passo ao lado do Hotel do Templo e entro no portão em ferro forjado de acesso a um jardim que se situa em frente. Viro à direita, sempre encostado ao muro com gradeamento, desço um pequeno lanço de escadas em pedra e chego a um pátio sobranceiro debruado com grade também. Encostado a um muro, um banco corrido e uma mesa, ambos em granito como não poderia deixar de ser. Sobre o banco, uma lápide recorda um frequente e assíduo utilizador. Almeida Garrett. Homem grande do nosso universo literário. Que aqui, neste banco e a esta mesa escreveu obra! Neste banco corrido me sentei também com frequência há já alguns anos atrás e me sento hoje. Aqui, por baixo de um velho castanheiro, rodeado por uma área imensa de árvores seculares – a cerca do Bom Jesus do Monte. Granito sem fim, canteiros ajardinados deslumbrantes e histórias. Sobretudo as histórias.
E, este ar!
Este ar que liberta. Apura o paladar. Alivia as narinas. A audição. A visão. O tato.
Os cinco sentidos!




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