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“Mortalidade” (e causas associadas) na disciplina de biologia e geologia

Os exames nacionais em geral e de Biologia e Geologia (BGG), em particular, têm grande repercussão na vida de professores, alunos e pais porque regulam as práticas letivas dos primeiros e condicionam o futuro dos segundos, pois, em muitos casos, esta disciplina é obrigatória para a entrada no curso universitário pretendido. Os resultados dos alunos nos exames da disciplina de BGG têm sido dececionantes pelas médias baixas e pelas elevadas taxas de reprovação. Em 2013, dos 51.323 alunos que se apresentaram a exame, reprovaram 33.275, ou seja, cerca de 65%.

Teresa Lopes e José Precioso
3 Nov 2013

Para contribuir para a resolução deste problema, desenvolveu-se uma investigação com os seguintes objetivos: i) caraterizar o (in)sucesso dos alunos na avaliação externa de BGG, ii) averiguar as perceções de professores, alunos e pais sobre as causas de insucesso na aprendizagem e na avaliação externa da disciplina de BGG, iii) averiguar as medidas sugeridas para promover o sucesso na aprendizagem e na avaliação externa da disciplina, iv) e, por último, confrontar as perceções dos três grupos. Para a consecução dos objetivos, esta investigação contempla quatro estudos. O primeiro centra-se na análise dos resultados dos alunos na avaliação externa de BGG, no ano letivo de 2010/2011, tendo por base os dados disponibilizados pelo Júri Nacional de Exames. Os outros três estudos centram-se nas perceções de cada um dos três intervenientes do processo de ensino e aprendizagem: professores, alunos e pais, recolhendo–se os dados, através de entrevista semi-dirigida.
Os resultados do primeiro estudo revelam um cenário de insucesso generalizado em todos os distritos do país. A faixa litoral norte e centro e o Algarve são as zonas que apresentam médias mais elevadas, verificando-se os piores resultados no interior do país, o que parece poder ser explicado pelos níveis socioeconómicos dos alunos.
Relativamente aos três outros estudos, docentes, alunos e pais convergem quanto às principais causas de insucesso na aprendizagem de BGG, destacando a falta de estudo dos alunos e a exagerada extensão do programa da disciplina. Quanto às principais causas de insucesso no exame, indicam, além da extensão do programa disciplina, a elevada dificuldade do exame e a ansiedade inerente à situação de exame. No que concerne a algumas medidas para promover o sucesso na aprendizagem da disciplina e no exame, sugerem a diversificação de metodologias, o aumento do trabalho dos alunos, a diminuição do programa, o aumento da componente prática e a realização de testes com estrutura semelhante à dos exames. Todos defendem a diminuição do grau de dificuldade da prova. No entanto, divergem relativamente ao grau de dificuldade da disciplina, que apenas pais e alunos consideram demasiado complexa, e às dificuldades dos alunos de comunicação, interpretação e análise que só são referidas pelos professores. Em síntese e numa só frase, o insucesso escolar na disciplina de Biologia e Geologia e no exame é um problema grave, muito prevalente e generalizado que se tem vindo a agravar, ao ponto de dois em cada três alunos que foram a exame (e a maioria já vai com 10 valores) reprovarem. Esta elevada mortalidade no exame prende-se fundamentalmente com a extensão do programa e com a elevada complexidade da prova. É urgente fazer exames para alunos “médios” e não para alunos excecionais, pois a fasquia elevada a esse nível impede muitos alunos de a ultrapassarem, reprovando, o que os impossibilita de prosseguir estudos naquele ano. Elevando as dificuldades de ultrapassar essa barreira (É de salientar que os alunos da área de ciências realizam mais dois exames de elevado grau de dificuldade, como é o caso da Matemática e Física e Química, para além do exame de Português.), corre-se o risco de alunos com sucesso ao longo do ensino secundário abandonarem o sistema de ensino, o que é inconsistente com uma sociedade que pretende elevar a escolarização dos seus cidadãos, sabendo que só assim poderá ansiar por desenvolvimento. É tempo do Ministério da Educação abrir os olhos para esta realidade, procurar as verdadeiras causas, compreender as consequências e deixar de externalizar a responsabilidade, culpando sempre professores e alunos por esta verdadeira epidemia que é o insucesso escolar.




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