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Um olhar em redor

No decurso da semana transacta, e no mesmo dia, leio nos jornais o que passarei a citar, individualizando os membros do Governo que, sobre o mesmo assunto, se pronunciaram conforme segue:Passos Coelho – O primeiro-ministro afirma que Portugal não precisará de um segundo programa de auxílio financeiro externo, que seria “um risco demasiado grave para o país enfrentar”. Pires de Lima – O ministro da Economia revela em entrevista à Reuters que o Governo está apostado em começar a negociar um programa cautelar no início do próximo ano.

Joaquim Serafim Rodrigues
2 Nov 2013

Carlos Moedas – O secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro admitiu que Portugal precisará de um “seguro” para voltar aos mercados. “É esse tipo de apoio a que se estaria a referir o ministro da Economia”.
Maria Luísa Albuquerque – A ministra de Estado e das Finanças disse que o programa cautelar “não está em discussão”. O Governo, insistiu, quer acabar o actual programa de apoio e garantir a sustentabilidade das finanças públicas.
No mesmo dia leio também: Mesmo com mais medidas de austeridade, o Orçamento do Estado para 2014 não vai ser suficiente para alcançar a meta do défice orçamental de 4%, conforme negociado com a troika (Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO)).
Conseguiu interpretar esta autêntica charada caro leitor? Se foi capaz de decifrar este enigma, então dê graças a Deus por se considerar apto a demonstrar que a quadratura do círculo não é, como se supunha, uma utopia sem solução.
Afinal, errare humanum est – não custa confessá-lo: na minha última crónica considerei o actual Governo mal estruturado e desarticulado, espécie de conjunto orquestral (passe a imagem) cujos naipes, flautas, fagotes, oboés, etc., se fazem ouvir tocando cada conjunto para seu lado, sem que o respectivo regente da banda se aperceba disso: desalinhado também, não larga as percussões (discursos obsessivos e inflamados, leia-se), como se, alheio aos demais, vestisse a pele de Offenbach ao finalizar com estrondo esse fascinante “Orfeu nos Infernos”! Contudo, lá estou eu a teimar (sou muito persistente, até que me provem que laboro em erro): até quando este desconcerto?
Aliviemos, entretanto, esta carga opressiva com a qual impregnei, talvez sem o querer, creiam, a presente crónica: registo, também, esta animadora afirmação proferida pela senhora Ministra das Finanças (tudo no mesmo dia!): O Governo já está de olhos postos em 2015 (é o que se chama ver longe), ano em que o Orçamento será “menos duro” para os portugueses. Basta, portanto, resistir ao “aperto” financeiro e suportar ainda até ao fim do ano em curso, ultrapassar com galhardia igualmente austera, pudera (até rima mas é verdade) o próximo ano de 2014 e, quem lá chegar, poderá alfim proferir com profundo alívo recordando Pessoa: “Valeu a pena? Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena”. Só que, esse princípio espiritual em oposição à matéria, esse alento, ou ânimo, subsistirá ainda por essa altura naquelas casas onde a fome já entrou há muito, sem falar naqueles que nem casa têm? Não será tarde de mais?
Acho melhor terminar por hoje, prezado leitor: emocionando-me contagio certamente aqueles que, porventura, me dispensaram a sua atenção. Será melhor para todos!




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