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O bom humor do cónego Gomes

Republicano de primeira água, deputado polémico, distinto publicista e não menos distinto orador sacro, o Cónego José Maria Gomes nasceu em Vila Verde na segunda metade do século XIX, mas radicou-se em Guimarães, cidade onde exerceu funções de professor no então Liceu Martins Sarmento – na altura, instalado no atual edifício da Câmara Municipal, cujo largo fronteiro ainda hoje ostenta o seu nome, mais de oito décadas depois da sua morte.

Victor Blanco de Vasconcellos
31 Out 2013

Homem de sangue na guelra e de verbo sempre à espreita na ponta da língua, batalhou ferozmente para que aquele liceu vimaranense fosse elevado à categoria de “Lyceu Central”. Isso não o impediu, todavia, de entrar em rutura com o então reitor do mesmo liceu, num conflito lamentável que ganhou proporções gigantescas – a ponto de, inclusivamente, o mesmo Cónego Gomes escrever um “folheto” de 72 páginas a desancar no referido reitor, apesar de este ser também sacerdote…
Uma das suas mais vincadas caraterísticas era o “bom humor”, ainda que revestido, frequentemente, de sarcasmo de atoarda. Imagine, pois, o leitor a força das bordoadas intelectuais que o Cónego José Maria Gomes desferiu no “lombo” do reitor do liceu, que teve a ousadia de pretender enclausurá-lo no caixote da subserviência!
Um dos episódios mais conhecidos da “língua solta” do cónego teve por alvo Afonso Costa, que viria a ser uma das figuras proeminentes da Primeira República. Ocorreu em 1901, aquando do primeiro julgamento do processo do homicídio de Francisco Agra, no qual o advogado Afonso Costa defendeu o acusado, Júlio de Campos, que viria a ser absolvido (e, mais tarde, inocentado).
Esse conhecido “episódio” é narrado por Raul Brandão, na obra O Vale de Josafat (vol. III das “Memórias” do escritor). Conta o autor de Húmus:
«No julgamento de Júlio de Campos, em Guimarães, [Afonso Costa] quis enfrentar-se com o papudo e irónico Cónego José Maria Gomes, que tinha fama de piadista e parecia um padre do tempo do Bocage. Ele era advogado, o outro testemunha. E o Afonso Costa, a certa altura do interrogatório, espicaçou-o:
– Aí está o senhor a meter uma no cravo, outra na ferradura…
Resposta imediata [do Cónego Gomes], com um sorriso ainda por cima:
– É que o senhor doutor não está com o pé quieto!»…

Vem esta referência ao Cónego José Maria Gomes a propósito do que hoje e amanhã se vai passar no Parlamento. Nestes dois dias, os membros do Governo vão alapar-se no respetivo “palanque” para defenderem os encantos da sua dama orçamental para 2014 – enquanto do outro lado, nas bancadas, os deputados “do contra” farão ouvir a sua voz, zurzindo nos mesmos encantos.
Ora, pelo que temos vindo a apreciar na Assembleia da República nos últimos tempos, adivinha-se mais um rol de insultos saltitando de um lado para o outro, com o azeite do “vernáculo” a vir ao cimo da água. Burlas, roubos, aldrabices e outros epítetos semelhantes virão à tona da discussão, a manter-se o clima de ferocidade partidária com que os senhores deputados se têm mutuamente brindado nos últimos tempos…
E nós, o povo, nas “galerias” da miséria, a ouvirmos aquelas diatribes que em nada melhoram o País! E a desejarmos que, ao menos, os senhores deputados da Nação nos fizessem rir como o Cónego Gomes – já que não são capazes de “falar a sério”!




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