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A escola do Nelo

Frequentemente me lembro dele. Do Nelo (Manuel Silva, para o Registo Civil e Nelo para os amigos). Foi meu colega de carteira, na escola primária lá da aldeia natal, da 1.ª à 3.ª Classe, porque a 4.ª não era obrigatória, nem acessível a todas as cabeças. O que nem era o caso do Nelo: um ás na Aritmética e em Geografia; então, em História Pátria (D. Afonso Henriques, o Conquistador, D. Sancho I, o Po-voador, D. Afonso III, o Bolonhês, D. Duarte, o Eloquente, D. Maria I, a piedosa…) ninguém o batia; e no Português brilhava, como astro de primeira grandeza, quando havia que conjugar verbos, dividir e analisar orações e classificar preposições.

Dinis Salgado
30 Out 2013

Mas o Nelo faltava demasiado à escola, para ajudar os pais (lavradores – caseiros) nas fainas da lavoura; a professora, a D. Maria, não apoiava a situação e lá chamava, de quando em vez, o pai a capítulo. Ele, chapelório na mão e ar de mendicante, implorava perdões e rogava compreensões: que era pão para a filharada, sete com o Nelo, que estava em causa.
Feita a 3.ª Classe, e contra a vontade da D. Maria que nele via dotes que não se deviam perder, o Nelo abandona a escola e regressa definitivamente ao campo para sachar milhos, plantar árvores, guardar rebanhos, gradar e semear a terra; e, adeus, Geografia, Aritmética, História Pátria e Português.
E, assim, concluída a 4.ª Classe, abandonei a aldeia para prosseguir estudos na cidade, o que me levou a perder-lhe o rasto; mas, hoje, a esta distância de muitas luas e sóis e com as voltas e reviravoltas dos sistemas sociais e escolares, tenho a certeza de que, se o Nelo tem prosseguido estudos, seria um bom engenheiro ou doutor.
Ora, isto acontecia na década de cinquenta e numa escola que não era para todos; uma escola não inclusiva, que segregava, separava, selecionava; porque o direito à educação também não era universal, obrigatório e gratuito.
E, se os objetivos primordiais de uma escola pública são proporcionar equidade e igualdade no sucesso, acesso e progresso educativos para todos e garantir o respeito e tratamento das necessidades, diversidades e incapacidades de todas as crianças e jovens, a escola do Nelo não era, seguramente, uma escola pública e, muito menos, uma escola inclusiva.
Pois bem, no atual momento, o país atravessa uma grave crise económica, social e de valores que está a refletir-se duramente em todos os sectores da sociedade e, no caso, a destruir a escola pública; e sem esta não há acesso universal, obrigatório e gratuito ao conhecimento que sempre foi fator de liberdade e democracia.
Depois, a igualdade de oportunidades não pode ser de direita ou de esquerda; e, muito menos, depender da vontade e livre arbítrio de uns quantos governantes tecnocratas e economicistas, não fora ela uma condição de humanidade.
Daí que nenhuma crise económica, por mais grave e profunda que seja, deva ser aproveitada, como presentemente acontece, para destruir os direitos humanos fundamentais, nos quais se inclui a escola pública, para, em seu lugar, instalar a ignorância, o segregacionismo e a miséria da escola do Nelo; da escola de todos os Nelos.
Então, até de hoje a oito.




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