Fotografia:
No meio de um oceano

Por diversas vezes já ouvimos dizer que estávamos a meio do túnel, a meio da ponte e até a meio de uma maratona. A imagem nunca me suscitou adesão, embora a tenha usado nos meus comentários semanais. Acredito mais, como disse na última quinta feira a minha colega Carlota, que “o Governo anda no meio de um oceano” revolto, digo eu, e completo, esbracejando à espera de um pedaço da embarcação ou, se possível, de um barco salva-vidas. E nós dependentes da sorte do piloto e dos marinheiros! À distância que está das margens, será difícil conseguir um bote salvador.

Luís Martins
29 Out 2013

Pode ser que algum pedaço do barco naufragado ajude a aguentar-se por mais algum tempo o náufrago, mas a solução será sempre muito frágil e instável. Isto a propósito – foi na sequência disso que a minha colega se pronunciou – de mais uma vez a palavra do primeiro-ministro ter ido por água abaixo. É verdade. O Conselho de Ministros, pelos vistos, discutiu o tema do célebre guião para reforma do Estado, mas não aprovou o documento. A promessa de que o início da discussão do Orçamento se faria sobre o documento já foi.
Sobre o assunto, quase se pode dizer que daqui a pouco termina a legislatura sem que o dito guião esteja pronto e em vigor. E ainda na quarta-feira passada foi assegurado, não apenas com os pés, mas com todo o corpo, pelo primeiro-ministro na Assembleia da República, que seria aprovado no dia seguinte. Pode ser que a ideia seja elaborar um bom documento, mas, que diabo, não será já tempo dele aparecer? Já estamos na segunda metade da legislatura! Não acham estranho que algo esteja a ser aplicado –  o Governo diz que a reforma está a acontecer – quando ainda nem existe o roteiro? Esperemos é que nenhum ministro o tenha levado para alto-mar!
De duas uma: ou o Governo se enganou ao prometer um guião para a reforma do Estado ou não sabe o que é um guião. Não é assim tão difícil. No dicionário Priberan da Língua Portuguesa, guião é “o que guia [ ] texto com os tópicos principais de trabalho ou discussão [ ] com os pormenores precisos para a realizar”. A ser assim, um guião devia preceder qualquer medida. Cada uma destas devia ser coerente com outra, num todo coerente. Sem guião, isso não é possível. Não se aplica. Certamente por isso é que ainda não há a reforma prometida. Têm razão os que dizem que tem havido apenas corte, correndo-se o risco de várias medidas decididas pelo Executivo serem potencialmente contrárias a uma verdadeira reforma do Estado.
Diz-se também que, apesar de não ser conhecido pelos portugueses, ele tem sido seguido. Por mim, aposto em como não existe guião nenhum. Se ele existisse, o Governo não se daria à maçada e à indisfarçável vergonha de ter de vir a público dar uma desculpa redonda, que não diz nada, e prometer nova data para a apresentação definitiva do dito cujo.
Uma analogia, pode ajudar a perceber. Nas novelas há um guião. Passam por episódios, mas seguindo o guião. No Governo há novela, porém, sem guião. Ninguém do Governo sabe qual vai ser o próximo capítulo. Na novela, o capítulo seguinte está sempre pronto a entrar em cena. Ora bem, se até estes programas de entretenimento têm um roteiro ou guião que integram as cenas, as personagens, os cenários, os diálogos, as indicações diversas que os actores devem seguir, o momento e o local das cenas e isto, com as necessárias adaptações, também acontece num directo televisivo onde se recorre a improvisos, mais se justificaria numa matéria crítica e estruturante como é a reforma do Estado. Só através dum roteiro, é que os portugueses terão a possibilidade de perceber o seu significado a partir do conjunto das medidas e acções propostas.
Com algum jeito, dois meses depois de ter acontecido e ter sido publicado no Diário da República, Passos Coelho há-de vir dizer “O Governo deixa, a partir deste momento, de exercer funções. O guião de Portas não era para reformar o Estado. Era para me depor. Chegou agora. A culpa foi só dele. Agarrem-no!”.




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