Fotografia:
Questão de estratégia…

Creio ter sido “Montapert” que escreveu um dia: «somos totalmente responsáveis pela qualidade da nossa vida e pelo efeito exercido sobre os outros, construtivo ou destrutivo, quer pelo exemplo quer pela influência directa». Isto para lembrar que vivemos agora em permanente angústia, porque sobram os problemas e faltam as soluções, mas sobretudo porque a falta de esclarecimento sobre a necessidade de tanta austeridade, leva-nos a concluir bem ou mal, pela falta duma verdadeira estratégia política para o país.

J. Carlos Queiroz
28 Out 2013

Uma coisa parece evidente. As questões são maioritariamente económicas. Mas, por outro lado, nunca será demais insistir que o principal problema foi da má governação política do País ao permitir-se chegar ao ponto de dependermos totalmente da vontade externa da Europa, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, sejam eles na qualidade de credores, colaboradores ou simplesmente parceiros representados pela Troika. Uma economia estagnada, com endividamento externo e consequente pagamento de juros da dívida, é inimiga duma boa estratégia e limita mesmo qualquer eventual vontade política de mudança.
Mas, obviamente, não são apenas alguns políticos os responsáveis pelo drama, pois os próprios partidos políticos com seus representantes e suas ideias, influenciaram necessariamente a governação do país. Um dia li que a democratização dos partidos, honradez, verdade e exemplaridade da actividade política, colocando a participação dos cidadãos na primeira linha do debate político e da procura de novos rumos para o progresso e desenvolvimento de Portugal, se inseria  num conjunto de medidas essenciais para o país. Em conclusão, a escolha de governantes não é tarefa fácil e o carreirismo político de muitos dos nossos jovens não favorece uma boa governação, até porque a prudência, a sensatez e o conhecimento real do país exige certamente um conjunto de pressupostos a que não será alheia a experiência de vida.
Queiramos ou não, a entrada no Euro, a globalização, a perda do direito de ter moeda própria, as reformas prometidas e nunca concluídas nos diversos sectores da administração pública, ou ainda a não eliminação de relações de favorecimento entre o poder político e os poderes económicos, são realidades que ao ser enfrentadas implicam reacções e mudanças profundas, cujas consequências nem sempre são diagnosticáveis. Daí a importância duma verdadeira estratégia política, assente nos princípios democráticos e com a responsabilização de cada um dos escolhidos para a governação. Levanta-se pois ainda hoje a questão de Portugal ter ou não, uma verdadeira estratégia política, considerando a gravidade da situação decorrente do endividamento e as consequências visíveis no desemprego, na vida das pessoas e na economia do país. Por vezes, ficamos com uma ideia errada sobre quem nos governa, talvez por falta de esclarecimento ou porque as medidas tomadas atingem os cidadãos sem qualquer equidade na repartição dos sacrifícios, mantendo por outro lado benefícios e excepções que não são compreensíveis e se afiguram de todo injustas. Por vezes, o próprio governo se assemelha a um navio perdido no alto mar, numa manhã de nevoeiro, fazendo barulho apenas para mostrar a sua presença. A palavra mais usada é austeridade e agora também a necessidade de agradar aos credores.
Significa que toda a estratégia supostamente existente passa por aí e só depois, as pessoas serão referidas como objectivo. Esta ideia do país adiado por erros políticos  e de austeridade permanente, denotam estarmos longe de ter uma estratégia para Portugal. Na verdade, o país nem precisa de demagogos nem de pessimistas, mas não pode dispensar os cidadãos de trabalhar através de medidas de excepção, como não deve continuar a semear desigualdade entre cidadãos. Será que faz sentido tanta desigualdade nas pensões, nas reformas ou mesmo nos salários ou vencimentos? Como pode ser possível continuar a discutir-se benefícios em pensões de 200 ou 300 euros? E ao mesmo tempo noticiar salários ou pensões de muitos milhares de euros? Parece evidente uma grande insensibilidade social, como se existissem dois países e cidadãos diferentes num mesmo território.
Desculpem, mas tanta desigualdade em pensões e vencimentos devia ter limites, aliás nunca existiram no passado, são produto legitimado pelas mais recentes gerações de políticos e governantes e constituem uma vergonha nacional. Falar em humanismo e solidariedade e ao mesmo tempo criar desigualdades, parece ser uma triste evidência dos últimos vinte anos. Ou será que os mais velhos afinal só fazem falta em tempo de campanha eleitoral? São afinal tristes realidades dum país empobrecido.
Ninguém pretende viver num país de pobres, mas também não necessitamos de tanta desigualdade que mostra que algo vai mal na forma de governar o país.




Notícias relacionadas


Scroll Up