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No ocaso da vida

Um dia destes pus-me a comparar Amália Rodrigues e Mário Soares. Amália Rodrigues era uma fadista de renome nacional e internacional. Pisou os mais famosos palcos da Europa e de outros continentes. Cantou Virgílio Ferreira, Camões, Homem de Melo e outros com a mesma sonoridade e mestria com que cantava o fado da saudade, por exemplo. A sua voz foi embaixadora de Portugal, levou o nome lusitano a todos os cantos do mundo e o mundo das canções chamou-lhe diva e consagrou-a no seu coração.

Paulo Fafe
28 Out 2013

Amava as plateias, dizem os que de perto com ela privavam, que os aplausos da crítica e as palmas das plateias faziam-lhe companhia; era a sua primeira personalidade porque lhe engrandeciam o ego e que desta autoestima não podia prescindir. Já no ocaso da vida, já quando a sua voz não passava de trauteios e estes substituíam a letra que a memória enfraquecida já não lembrava, continuava a dar espetáculos e a ter quem a ouvisse. Passou a viver do nome feito e não distinguia os aplausos merecidos dos da comiseração e compreensão pela estrela que perdia dia a dia o seu brilho e se encaminhava a caminho do sol pôr. Tem uma fundação e nela vive. Que é que isto tem a ver com Mário Soares para que o meu pensamento ebuliente, os juntasse numa semelhança que de todo parecia impossível? Mário Soares também pisou os maiores areópagos políticos da Europa e doutros continentes. “cantou” Marx, Engels, Proudhon e tantos outros socialistas. Amália era e é voz única. Mário Soares não é nem nunca foi a voz única socialista portuguesa. Cunhal, Salgado Zenha, Raul Rego, entre outros, são nomes que não deixam Mário Soares ser único. Projetam a mesma sombra de Mário Soares. Chamaram-lhe o pai da democracia. À Amália a mãe do fado. Mário Soares está, presentemente, no ocaso da vida; a sua memória enfraquecida, como a de Amália, já se não lembra de que foi informado dos dinheiros de Cavaco Silva, já se não lembra de que Rui Machete foi seu ministro, já não se recorda do FMI que meteu cá por duas vezes, ou dos recibos verdes. Não sei se sabe a letra da internacional, espero ao menos que a saiba trautear. As suas falhas de memória fazem-me lembrar as da minha avó que me acusava de lhe esconder os óculos que trazia na ponta do nariz. Mário Soa-
res, presentemente, vive politicando como Amália vivia cantarolando. Só que a Amália apenas traía o seu passado; Mário Soares é autofágica do passado;  julga que ainda lidera. Matou, assim, e em si o  imaginário. Todo o fascínio do imaginário é de filho prematuro. Sonho ou utopia tanto faz desde que aponte para as alvoradas. No ocaso da vida prevalecem as saudade. A imagem que tenho de Mário Soares é o da Amália quando já sem voz julgava que cantava. Com Mário Soares experimento o mesmo sentimento de pena, quando cuida fazer política. Ele é o caos que não quer ser. Mas quem se atrevia a dizer a Amália Rodrigues, cala-te, já não cantas. Quem se atreve a dizer a Mário Soares cala-te que já ninguém te ouve? Mário Soares vai recebendo imagens dos que o rodeiam e nas quais o seu eu se estriba investido de narcisismos serôdios; escorando-se de defesas imunes ao presente, não percebe que o seu tempo está no ocaso; quando agita esse passado, vemo-lo correndo a pernas mancas. Era bom que alguém o ajuda-se a situar-se nos tempos que  passam. Como Amália, uma dia, viverá na sua fundação.




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