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Os muito ricos e os muito pobres

Uma das histórias que se contavam repetidamente a seguir ao 25 de Abril de 1974 era sempre apresentada como verídica. Pouco importava, no entanto. O que contava era a clareza com que servia para expor dois projectos políticos distintos, um, social-democrata; outro, muito mais à esquerda. Os protagonistas eram Olof Palme, na altura primeiro-ministro da Suécia e líder do Partido Social Democrata e Otelo Saraiva de Carvalho. O enredo praticamente não existe e a versão mais curta pode resumir-se a uma brevíssima troca de palavras.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
27 Out 2013

O essencial é isto: Otelo vai à Sué-cia explicar o que pretendem os militares portugueses que derrubaram o fascismo. Quando encontra Olof Palme, depois das iniciais palavras de circunstância, diz-lhe que o objectivo da revolução portuguesa é acabar com os ricos. O primeiro-ministro sueco testemunha-lhe um programa diferente: “Nós, os sociais-democratas suecos, queremos acabar com os pobres. O que mais nos incomoda é a pobreza”.
Olhando, hoje, para grande parte dos dirigentes políticos europeus, é difícil não julgar que o que desejam com a sua acção é, sobretudo ou apenas, manter-se no poder, permanecendo nas graças dos muito ricos que, zelosamente, servem e de quem, de facto, dependem. O que promovem é o empobrecimento cada vez mais generalizado, designadamente das pessoas mais ou menos remediadas, o reverso, afinal, do projecto social-democrata, que tinha em Olof Palme um generoso inspirador.
Ao mesmo tempo que se empreendem políticas para empobrecer a maioria dos cidadãos, é fabricado e difundido um imaginário ideológico que apresenta os pobres como um grupo parasitário, absolutamente avesso ao que prescreve a doxa vitoriosa dos doutrinários do empreendedorismo. Estranha gente, que fabrica pobres e lhes destrói a reputação.
Mas também, helás, os pobres têm quem escreva livros para os defender. Com o objectivo de desmontar os mais vulgares preconceitos contra os mais pobres dos pobres, explicando que a estigmatização de que são alvo assenta não em factos, mas numa ideologia que mascara as verdadeiras causas da miséria, uma Organização Não-Governamental francesa, a ATD Quart Monde, publicou este mês uma obra intitulada Acabar com as ideias falsas sobre os pobres e a pobreza (Ivry-sur-Seine: Éd. de l’Atelier, 2013).
“No nosso mundo em crise, os pobres e os estrangeiros tornam-se os bodes expiatórios de uma sociedade em que as relações não param de se endurecer”, disse à revista La Vie Bruno Tardieu, dirigente de ATD Quart Monde e um dos autores do livro. Não basta, afirma ele, que as pessoas tenham direitos, é preciso também que sejam reconhecidas pelo que são.
É verdade que há gente com opiniões à prova dos factos, mas há também quem acredite em ideias falsas apenas porque não sabe das provas que as desmentem. Quem quiser ver, que veja, poderia muito bem ser o propósito de Acabar com as ideias falsas sobre os pobres e a pobreza.
O livro tem um modelo simples: cita quase uma centena de afirmações sobre os pobres ou a pobreza; indica, a seguir, se são falsas, verdadeiras ou se as coisas não são tão simples quanto se diz; e, por fim, justifica. Bastam três exemplos para se compreender melhor o alcance e mérito desta iniciativa.
Diz-se: “os pobres fazem tudo para aproveitar todas as ajudas ao máximo”. É “falso”, garantem os autores da obra, argumentando: “Pelo contrário, muitos não solicitam as ajudas a que têm direito. Por diferentes razões (vontade de não depender da ajuda pública, complexidade dos procedimentos administrativos, falta de informação, desejo de não serem controlados)”. A seguir, são indicadas as percentagens – de facto, muito elevadas – de apoios que não são reclamados.
Há quem denuncie que “se quiserem, não falta trabalho”. “Falso, a situação não é assim tão simples”, contra-argumenta-se, “as pessoas em situação de pobreza esperam maioritariamente encontrar um emprego e melhorar o seu nível de vida, tornando-se autónomas. No entanto, muitas defrontam-se com muitos obstáculos para o conseguir: formação insuficiente, problemas de saúde ou de mobilidade, crianças a cargo, ou finalmente – e sobretudo – ausência de empregos acessíveis localmente”.
Outra acusação é a de que “os pobres são defraudadores”. “Falso”. Para a ATD Quart Monde, “eles são menos defraudadores do que outros. Não se trata de negar que há fraudes nas prestações sociais, nem a necessidade de lutar contra elas. A verdade é que ela é muito reduzida em relação a outros tipos de fraudes – particularmente a fraude fiscal –, em relação aos quais os discursos estigmatizantes se interessam muito menos”. A afirmação é acompanhada por uma contabilidade eloquente: em 2009, o montante das fraudes no Rendimento de Solidariedade Activo, uma prestação social equivalente ao rendimento mínimo, é o correspondente ao pagamento
anual de mais 30 euros a cada beneficiário. Como notou em 2011 o Conselho de Estado francês, que o livro cita, “a fraude dos pobres é uma pobre fraude”. Nunca se pode dizer o mesmo das fraudes dos muito ricos. Aliás, as fraudes dos ricos nem sequer são, tantas vezes, consideradas fraudes porque são eles que ditam as leis que as legalizam.




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