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Crónicas do verde

“Que viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo — entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal.” Cito as sobejamente conhecidas primeiras linhas de “Viagens na Minha Terra”, obra de Almeida Garret, para vos dizer que, quer viaje à roda do meu quarto, quer vá até ao quintal ou mais além, tenho quase sempre comigo um pequeno tesouro, pelo qual nutro muito carinho e que me leva a ignorar os modernos “gadets” auxiliares de viagem, como o “gps”.

Fernanda Lobo Gonçalves
27 Out 2013

Um carinho que germinou quando, há cerca de vinte anos, espreitei a montra de uma livraria banal na Rua de Sá da Bandeira, no Porto, e seduzida pelo look vintage/Estado Novo de um livrinho verde, resolvi entrar e folheá-lo. Saí de lá com aquele pequeno livro e, em poucos meses, adquiri os restantes sete que compõem o velhinho “Guia de Portugal”, com edição iniciada em 1924 pela então Biblioteca Nacional de Lisboa, sob a coordenação de Raul Proença e concluída, já nos anos 70 do século XX, pela Fundação Calouste Gulbenkian e com a coordenação de Sant’Anna Dionísio.
São oito livros merecedores de um manuseio e leitura reverenciais, quase religiosos (ou não fossem, pelo formato e cores, tão semelhantes aos textos sagrados) e neles encontramos ricas e minuciosas descrições da geografia, etnografia, história, património, itinerários, etc, do nosso país tal como o viram, há décadas atrás, além dos já referidos Raul Proença e Sant’Anna Dionísio, nomes maiores da nossa cultura como Aquilino Ribeiro, António Sérgio, Jaime Cortesão, Orlando Ribeiro, Raul Brandão, Vitorino Nemésio, Jorge Dias e Miguel Torga, entre muitos outros.
Os textos são de notável qualidade e os tomos bem pontuados de gravuras, cartas e plantas. Descrevem uma realidade que, embora, em parte, se tenha desvanecido na voragem do progresso das últimas décadas, ainda é a matriz das nossas paisagens e gentes. Lemos e está lá tudo: das origens da mais humilde capela românica ao recheio do mais sumptuoso palácio. E esse tudo está, por vezes, tão anonimamente perto de nós, como significam as palavras de Montesquieu (citado no Guia por Raul Proença) ao dizer dos portugueses que tinham descoberto o Mundo, mas desconheciam a terra em que nasceram.
Para aguçar o apetite do leitor, termino como comecei – com um excerto. Agora, da descrição da viagem, pelo caminho de ferro, entre Nine e Braga. São algumas palavras retiradas do 4.º vol., tomo II, dedicado ao Minho.
“Bouças frescas e silvestres, do tojo e pinho, alternam com os trechos rústicos. Aqui e acolá, casas humildes e moradias cercadas de muros revestidos de trepadeiras floridas. Na Primavera, antes das vessadas, o gado barrosão retouça nos retalhos de alcatifa da serradela e do azevém, salpicada de malmequeres; na força do Estio, mastiga e rumina na frescura das cortes os punhados de pendão que o moço ou a moça lhes leva em grandes “molhos”, atados por uma verga de salgueiro.”




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