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Conversas do passado

Ir almoçar a casa dos meus avós era uma emoção. Punham uma almofada sobre a minha cadeira e, à medida que eu crescia, diminuía a altura da dita e as histórias tornavam-se mais interessantes. Um dos temas recorrentes era a disciplina e a frugalidade. O avô fora comandante de barcos à vela, naufragou duas vezes e viveu as duas guerras mundiais. Só me lembro de a minha avó narrar os naufrágios porque o tema era demasiadamente doloroso para o avô. Num desses naufrágios, no golfo da Biscaia, sobreviveram apenas dois homens, e o avô assistiu à morte do seu imediato, e melhor amigo, que subira ao mastro grande e caíra por as mãos lhe terem ficado enregeladas e incapazes de o segurar.

Isabel Vasco Costa
27 Out 2013

Em certas épocas do ano, era necessário navegar até Cabo Verde, apanhar vento favorável e, só depois, rumar a Norte, em direcção aos Açores, destino da carga. Outras vezes, ficavam mesmo à deriva, sem vento, parados na costa africana. Os homens ficavam tensos, nervosos, irritadiços. Felizmente, havia um marinheiro que pedia licença para se apresentar ao “meu comandante”. O avô já sabia do que se tratava, se o vigia tinha dado sinal de tubarão. Ia haver “circo”. Logo o homem mergulhava, nu, com uma corda e faca à cinta. Depois, desenrolava-se a luta entre os dois: a “tubaronada”, com o marinheiro a incitar o peixe à superfície para logo mergulhar por baixo dele abrindo-lhe o ventre com a faca. Da amurada, os companheiros aplaudiam e incitavam.
Se o comandante subia à ponte de comando, aí só eram admitidos os oficiais e o homem do leme. A disciplina e a hierarquia eram rígidas e necessárias. Delas dependia a vida dos seus homens. Isso ficou patente em certa viagem, durante ao conflito de 1914-1918, em que transportavam um carregamento de ferro, algo precioso em tempo de guerra. Durante uma tempestade, partiu-se o mastro grande e perdeu-se a capacidade de velejar. Um navio de outra companhia ofereceu-lhes reboque, mas o avô recusou porque metade da carga passaria  a pertencer a essa empresa de navegação. Pediu-lhes apenas que avisassem os seus escritórios, em Lisboa, da localização do navio para lhes enviarem reboque. O tempo passava e os alimentos e a água escasseavam. O avô mandou reduzir as rações e disse que daria uma garrafa de rum a quem avistasse terra. Quando um vigia o avisou e o avô ordenou que lhe dessem a garrafa prometida, o marinheiro implorou: “Não me dê a garrafa, senhor comandante, mas deixe-me beber toda a água que eu quiser”.
Não admira, pois, que os avós nos ensinassem a tapar o lavatório antes de lavar as mãos para não desperdiçar água. E ensinaram-nos a servir-nos, da travessa para o prato, apenas à medida do nosso apetite, porque “havia pessoas a passar fome”. Sentiu mesmo a necessidade de fundar uma “sopa dos pobres” no Minho, onde tinha casa perto de Caminha e as pessoas viviam com grandes dificuldades e havia muitas viúvas de marinheiros com filhos para alimentar.
Também os avós de agora têm um passado cheio de aventuras! Quantos netos estarão dispostos a ouvi-los? Isso dependerá da generosidade dos nossos filhos, ao oferecerem irmãos ao filho mais velho em vez de… computadores. Depois, os almoços à volta de uma mesa com toalha, boas maneiras, alguma disciplina e histórias para contar… isso é connosco!




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