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A perder também se vence

Não costumo comentar jogos em que não participe o nosso SC de Braga mas abro hoje uma exceção. O jogo da passada terça-feira entre o FC do Porto e o Zenit foi, em vários aspetos, paradigmático. A equipa portuguesa fez um grande jogo mas perdeu. O adversário apresentou-se no Porto recheado de vedetas e com a certeza de possuir um plantel bem mais recheado do que o da equipa da casa. Prova disso é que o craque maior, Hulk, foi adquirido ao FC do Porto que não o conseguiu segurar.

Manuel Cardoso
24 Out 2013

No entanto, o que mais me impressionou não foi a constelação russa. Foi o espírito com que o FC do Porto encarou o jogo a partir do momento em que, logo aos seis minutos, ficou reduzido a dez por uma expulsão, no mínimo, exagerada.
Costuma dizer-se que quando se joga com menos um atleta, basta que cada um dos outros “dê” mais dez por cento de esforço. Foi precisamente isso que o Porto fez e acabou por dar um exemplo magnífico de espírito de luta, de concentração e de classe. Perdeu, é certo, mas pelo caminho ficaram duas bolas nos ferros da baliza russa e manifesta infelicidade em vários lances decisivos. Além disso perdeu, acima de tudo, porque pela frente estava uma equipa de grande qualidade.
Mas, para mim, um dos momentos altos da noite foi o efusivo aplauso que o exigente público portuense dedicou à equipa no final do jogo. Na verdade, os azuis e brancos deram um exemplo magnífico do que deve ser a postura de uma equipa profissional num jogo de grande importância. Jogadores como Mangala, Fernando e Jackson Martinez foram verdadeiros heróis numa luta incessante contra um adversário poderoso, um árbitro exigente e algo injusto e uma sorte que nada quis com eles.
O nosso SC de Braga, nesta época, já perdeu em inferioridade numérica e já perdeu em superioridade numérica. Se num caso não soube tirar partido da superioridade, no outro não se viram os tais dez por cento a mais de esforço. Talvez de nada valesse como de nada valeu o esforço do FC do Porto na terça-feira passada. Mas o futebol não vale só pelos pontos; vale por ser um magnífico espetáculo em que a arte tem de ser banhada em suor. Grande parte da beleza do futebol está no espírito heroico que aqueles profissionais, por serem pagos a peso de ouro, têm de demonstrar em campo.
É por isso que eu admiro incondicionalmente um treinador como José Mourinho; ele pode ser polémico; pode ser por vezes antipático; pode até cometer erros por ser tão teimoso. Mas é, seguramente, um dos treinadores que mais contribui para a grandeza deste desporto, pela forma como exige dos jogadores toda a aplicação que eles podem dar.
Nós, que não somos adeptos de ocasião não somos só os adeptos das vitórias, mais do que adeptos do nosso clube, somos adeptos de futebol. É óbvio que qualquer adepto prefere que a sua equipa ganhe jogando mal do que perca jogando bem. Mas quando, como aconteceu ao Porto, perde deixando a pele em campo, então, nesse caso, qualquer adepto de futebol dá por bem entregue o seu tempo e o seu dinheiro porque, mesmo perdendo, apreciou uma obra de arte.




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