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Main de Biran e o Enganoso Espiritualismo

É certo que uma das preocupações mais acutilantes de Biran (1766) é conhecer-se a si mesmo intimamente. Tal conhecimento, pensa ele, ajudá-lo-á a estabelecer um fecundo e amoroso relacionamento com Deus, ancorado e fortalecido pela contemplativa meditação e a deleitosa oração. Para alcançar tal iluminado objetivo, embrenha-se na consciência que, para Biran, é a manifestação do sentido íntimo que, como facto primitivo, se identifica com a voz de Deus. A consciência é, então, diz o filósofo e psicólogo, a manifestação da revelação Divina. A consciência é, também, a revelação da vontade ou do eu como causa ou força produtiva dos efeitos dos quais a liberdade é manifestação.

Benjamim Araújo
23 Out 2013

Segundo Biran, no campo antropológico, o homem total é organismo; é consciência (sensibilidade e raciocínio); é vontade, é relação com Deus, é religião. Estas são as três vidas do homem, sendo a terceira (vontade, religião e a relação com Deus), o anelo da sua espiritualidade. É nesta terceira vida que as autoridades e instituições políticas, morais e religiosas se devem fundamentar e sintonizar, diz Biran.
Para além das suas conotações, levanta-se a questão: – O que é a consciência? A consciência é a manifestação do conhecimento experiencial dos fenómenos biopsíquicos, que o eu tem de si mesmo, através da observação interior (introspeção ou reflexão interior), método da psicologia.
Nestas três vidas (que desolação para mim!) Biran decreta, ao dualismo corpo e alma, uma radical disjunção, no campo da união, do valor e superioridade, entre a espiritualidade da alma e a materialidade do corpo, evidenciando, em todos os campos, a supremacia da alma sobre o corpo. Este, curvado pelo peso da materialidade, com os seus afetos e paixões, torna-se um empecilho, que a força da vontade tem de remover, para que a espiritualidade do homem caminhe, alegremente e com esperança, para a sua amorosa relação com Deus.
Vou, agora, como pessoa, dedilhar nas cordas dos ajustamentos e tirar delas a melodia que se ajusta à espiritualidade materializada do guitarrista.
Há no homem dois pilares, que ele deve amar como indivíduo e como pessoa. São os pilares fisiológico e psíquico. No pilar fisiológico, manifesta-se o corpo, superando-o. No pilar psíquico, manifesta-se a alma, superando-o. Nesta dualidade, intrinsecamente unida, manifesta-se, superando-a, a corporalidade espiritualizada na sua unicidade – a natureza autêntica. É esta natureza que, imperativamente, impõe ao indivíduo, como manifestador da sua unicidade, amor e respeito, sem disjunção para com nenhum destes pilares. É esta mesma natureza que impõe à pessoa, como manifestadora do seu relacionamento universal, amor e respeito, sem disjunção para com estes pilares. Este imperativo está cimentado na autonomia, liberdade e responsabilidade do verdadeiro ser da nossa natureza. É nesta natureza, mas superando-a, que se manifesta a Divindade, com todo o seu poder, amor e sabedoria.
Do púlpito desta nossa natureza, vou lançar um repto contra a filosofia espiritualista pela sua decretada e ousada disjunção entre corpo e alma. Este espiritualismo pecou, também, contra o ser na sua unicidade e no seu global relacionamento. Pecou, evitando os seus regressos ao vital e eterno ser.
Toda a política, religião, moral, toda a autoridade e o espírito humano, que não partam do ser autêntico para a vida e estes a ele não retornem, arriscam-se a escorregar pelos desfiladeiros dos raciocínios errados e a cultivar placebos mentais, desorientadores da atenção e demolidores da reflexão crítica. Assim aconteceu com Biran. Assim aconteceu e acontece com muitos filósofos e teólogos.
Apesar das críticas tecidas, respeito e estimo Biran pelo seu sincero pendor religioso e pelo seu desejo do bem para todo o homem.




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