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Dieta à portuguesa

A conversa podia ter acontecido em muitos locais deste país. Sobre os motivos do tema, nem é preciso dizer nada. A interlocutora desta crónica, a quem recomendaram a dieta que se segue, não está identificada, mas representa todos os seus pares. Na minha opinião, muito bem. – Não coma nem beba. Faça-o devagar, devagarinho, mas sem desistir, como o burro de São Benedito. Considere isso uma poupança. Nunca fale de que está a cortar na comida ou na bebida. Faz mal à dieta e podem olhá-la de soslaio. O tratamento pode não resultar e arrepender-se de prosseguir. Faça-o em silêncio.

Luís Martins
22 Out 2013

Não barafuste. Não ralhe com ninguém. Se possível, diga bem da dieta que está a fazer. Até quando puder. Enquanto tiver forças. Dos benefícios, fale alto e bom som. A plenos pulmões. Dos malefícios, bom, o melhor é não os contar a ninguém. Nem aos de casa. Faça tudo sem crítica, como se o tratamento não fosse consigo.
Depois deste relato, comentei:
– Quem lhe prescreveu a dieta merece uma medalha, não é verdade?
Ouvi a resposta e continuei:
– Está convencida? Não? Então porquê? Ah, já não tem dinheiro para compensar com vitaminas? O quê, as vitaminas não são comparticipadas? Não me diga… Pelo menos essa medicina equilibraria o seu organismo depauperado de alimento!… Está a poupar quanto por mês? Nada? Mas então, se não gasta, é suposto ter poupanças no banco, a não ser que tenha estado a ajudar os filhos e noras que estão desempregados. No mínimo, há-de ter podido meter umas moeditas na ranhura do porquito lá de casa… O porco foi levado pelas finanças? Mas que diabo! O Portas sempre disse que estava com os pensionistas, não tem estado consigo? Já lhe pediu ajuda?… Ah, compreendo, ele agora está no Governo… Preferia-o na oposição? Mas aí é que ele não fazia nada, só podia prometer… Mas que grande aldrabice! Ele fez-lhe mesmo isso?
Prometi fazer qualquer coisa. Como o prometido é devido, aqui estou. E não vou dizer nada que não sinta.
O Governo andou a anunciar medidas às pinguinhas, quase ao jeito de tortura. Agora, fez a síntese e acrescentou outras, algumas das quais de duvidoso critério, injustas e talvez ilegais.
– Então, alterar as condições dos pensionistas não é um corte, senhor ministro Paulo Portas? Pergunto-lhe a si porque o primeiro-ministro se ausentou do país logo depois da apresentação da proposta de Orçamento de Estado para 2014. Com que então, o senhor diz à ministra das finanças para cortar os salários dos trabalhadores do Estado e isso é uma poupança? Por acaso tem alguma coisa contra os funcionários públicos? As pessoas ficam a receber menos prestações sociais ou deixam simplesmente de receber e isso não é um corte? Mais austeridade sobre a que já pendia sobre os cidadãos e acredita que isso vai trazer crescimento, designadamente, através do aumento do consumo interno? Acha que somos estúpidos?
Posso estar enganado, mas digam-me, por favor, caros leitores:
– Não era Paulo Portas o presidente do partido dos pensionistas e dos mais frágeis? Não acham que já ultrapassou a tal linha vermelha que definiu? Será que a levou Passos Coelho? Estará com problemas por causa do excesso de trabalho desde que mudou de posto? Passos Coelho passou-se e agora quer ver Paulo Portas a seu lado para se não sentir só?…
A diferença entre a dieta prescrita e a de um clínico a sério é que aquela acabará, com grande probabilidade, por matar o doente. Foi o que aconteceu ao burro de São Benedito. Será o que nos acontecerá se continuarmos a seguir à risca aquele menu. A verdade é que se o Governo gasta menos, mas perde a sua função de solidariedade, deixa de ter sentido. E sendo assim, não tem qualquer serventia.
Estou a perceber… Ah, tudo se joga na Assembleia da República… Então os partidos e as respectivas bancadas não estão a controlar? Também deixaram de representar o povo? Haja quem nos defenda!




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