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2013, ano do desastre ambiental transmontano

1 Incêndios, barragens, parques eólicos, pedreiras, auto-estradas…). Há uns escassos 8 anos atrás, sobretudo antes da chegada de José Sócrates ao poder, a província de Trás os Montes e Alto Douro era um paraíso natural, um modelo de conservação ambiental. Os horizontes estavam intocados, os grandes rios (excepto o Douro) completamente livres de barragens, o dorso dos montes sem uma única ventoinha eólica. Os antes abundantes e enormes fraguedos virgens, de granito e xisto (tão raros no resto do Mundo) ainda não estavam devastados por Motas e Somagues.

Eduardo Tomás Alves
22 Out 2013

Os sobreirais, pinhais, soutos de castanheiros ou matos de azinho ainda não estavam reduzidos a cinza como hoje, ou substituídos por estúpidas linhas geométricas de pequenas oliveiras e amendoeiras, como agora vai prevalecendo. Já para não falar do aumento dos eucaliptos e de plantios dos ditos “cedros do Bussaco”, uma conífera guatemalteca de alta montanha, recomendada pelos “técnicos” da Universidade de Trás os Montes…

2 – Em Setembro último, o Tribunal de Mirandela aceitou providência cautelar contra barragem do Tua). Soube da importante notícia (que passou quase despercebida), através da TSF. E nos dias seguintes procurei a confirmação em vários jornais. Apenas o “Público”, de 21 de Setembro, em notícia da pág. 11, dá devido relevo ao despacho judicial contra a barragem. A iniciativa partiu mais uma vez desse desconhecido herói nacional, que é o eng.º  Joanaz de Melo, líder do GEOTA, aqui coligado com outras 8 associações ambientais e um latifúndio vinícola (dos Symington?) na plataforma “Salvar o Tua”. E tal como na destruição do vale do Sabor, o GEOTA afirma que se trata de “uma barbaridade e um crime contra o Património nacional e contra os bolsos dos portugueses”; de “uma obra totalmente inútil que vai ter um custo brutal para o País (…), comparável aos piores casos das ex-SCUT (…) ou ao caso BPN”. A propósito disto, eu recordo aos snrs. leitores que as famosas auto-estradas de Sócrates ainda só vão começar a ser pagas por nós todos a partir de 2014… Quanto a estas 2 “barragens em rios secos” já começámos a pagá-las aos chineses com cerca de 50% da factura mensal da electricidade. Um verdadeiro “salto de tigre” (tigre com “3 gargantas”…), sobretudo se comparado com os módicos lucros das prévias, mas ubíquas, lojas chinesas de bugigangas.
3 – Um brilhante artigo de Daniel Deusdado, sobre o Tua). Quem gostar de leitura eletrónica, deve poder lê-lo (antes que o apaguem…). Saiu a 20-6-2013, na pág. 16 do “Jornal de Notícias”, periódico sempre tão amigo da EDP, de Sócrates e das barragens. Foi logo a seguir à UNESCO ter sido ludibriada acerca da grandiosidade e do valor paisagístico do majestoso vale do Tua. Lá deixaram o homem publicar a sua opinião contrária, ele que é aliás um dos muitos (são 40!) conselheiros editoriais do mesmo JN. Recomendo a leitura; o artigo chama-se “Porto/Douro – crime com nomes”.
4 – 2013 foi o ano em que arderam serras inteiras). Não foi só uma ou duas, como já vai sendo costume. Este ano arderam quase por inteiro umas 5 ou 6 serras, 4 das quais em Trás os Montes. Voltámos a ter uma “época de fogos”, digamos, “à antiga”, parecida com os piores anos do passado recente: 2003 (com 425 mil ha. ardidos) ou 2005 (com 325 mil ha.). Contudo, o n.º oficial de ha. ardidos em 2013, embora o maior dos últimos 8 anos, é referido como sendo apenas de 135 mil ha.; acho muito optimista… P. ex., ardeu boa parte da vasta serra do Caramulo, entre Águeda e Tondela (só no distrito de Viseu foram 35 mil ha.). Até ao momento morreram 9 bombeiros, é um valor médio (não esquecer, p. ex., há anos, os 14 mortos em Armamar; os 4 de Famalicão da Serra; os 25 soldados em Sintra). Duas vítimas eram raparigas e muito bonitas (uma de Lisboa, outra de Carregal do Sal). As serras transmontanas que arderam são as da Garraia (Murça); do Franco e Passos (Mirandela); da Lamalonga (M. de Cavaleiros) e da Ervedosa (Vinhais). Outros grandes incêndios na região foram o do Marão (Amarante) e o do Mogo de Ansiães. Mas maior ainda foi o que começou em Alfândega da Fé e se estendeu, entre 8 e 12 de Julho, por planaltos, montes e vales para Mogadouro e Freixo num total de 15 mil ha.. O Parque do Douro Internacional e o Sítio Protegido de Sabor-Maçãs são 65% desta área queimada. O fogo começou nos próprios altos barrancos do Sabor (em Picões) e teve o efeito prático de ajudar no futuro desmatamento de milhões de árvores e arbustos (lembram-se do Guadiana?) que será preciso fazer quando a triste albufeira afogar o sul do sinuoso, arcaico e belo desfiladeiro do Sabor.
5 – E os irlandeses querem pôr 15 a 20 ventoinhas no planalto de Ansiães). O sítio é fabuloso, entre as aldeias de Lousa, Castedo e Pinhal do Douro (esta última fica a norte e mesmo em frente da quinta do Vesúvio, onde John Major passou férias duas vezes). A câmara de Moncorvo (na pessoa do perigoso “dinossáurio” Aires Ferreira, que está de saída) assinou em Setembro um acordo com a multinacional Island nesse sentido. E um planalto onde ainda voam as águias, os cucos, os falcões (e donde no inverno se vêem, a 120 kms de distância, os cumes nevados da Cordilheira Central espanhola) pode ser transformado num horrendo “parque eólico”. Tal como a serra de Nogueira, em Bragança; ou a do Franco, em Mirandela. Eu já “estou por aqui” como se costuma dizer. E qualquer dia é como no célebre (e bem educativo) programa americano do “Lago dos Tubarões” (Shark Tank): digo (e faço) “I’ m out”, não contem mais comigo para apoiar o regime de Abril. Pouco falta.




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