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Mas eu quero

O que mais pode irritar e até violentar uma contestação é a explicação racional do objeto dessa contestação. Se dissermos a um filho que o dinheiro de casa não chega para ele ter o que quer, se lhe demonstramos com números incontestados que o dinheiro é aquele e mais nenhum, ele até pode compreender que é isso mesmo, mas continua a pedir e a reivindicar sem olhar às razões ou tentar assumir as justificações evidentes. Mas eu quero, diz e continuará a dizer repetidamente tapando a razão à razão e não ouvindo os argumentos.

Paulo Fafe
21 Out 2013

A razão é sua inimiga porque ele quer o que quer a qualquer preço, mesmo que lá no íntimo saiba que o pai não lhe pode dar o que pede. Estava habituado a ter tudo o que desejava, às vezes até lhe aumentavam a mesada  sem ele pedir, agora não compreende, ou não quer compreender, por que razão não era como antigamente, isto é, não compra o que dantes comprava sem olhar a gastos. Mas eu quero, continuará a gritar, outras vezes fará greve às refeições, amuará à mesa, depois fechar-se-á no quarto fazendo greve às aulas, protestará por tudo e por nada. Cada vez será sempre um pretexto. O pai cortou nos cigarros, deixou de ir ao restaurante, não vai ao cinema e há muito que nem sequer aluga um vídeo para ver em família, a mãe dispensou a mulher a dias e deixou de ir à cabeleireira de oito em oito dias.  Mas o filho fecha os olhos a estas restrições e continua a dizer, mas eu quero. Quando o pai pela milésima vez lhe faz ver que agora ganhava menos, a mãe estava desempregada, que os dinheiros encolheram, ele, numa crueldade que é ingratidão, continua a dizer, mas eu quero. Um dia o pai disse-lhe: filho, senta-te e ouve-me com atenção. O regalo de um pai é satisfazer a vontade do filho, é ver o filho sorrir de alegria e satisfação, é não ter de dizer não, é vê-lo em igualdade com os amigos do seu grupo, mas tens de compreender que as nossas disponibilidades financeiras encolheram, eu ganho menos trinta por cento, a tua mãe está desempregada e a receber o subsídio de desemprego, e só enquanto ele durar; então tivemos de reorganizar os nossos gastos e estabelecer as nossas prioridades; a primeira é para as despesas primárias ou indispensáveis: comida na mesa, o dinheiro para água e luz, pagamento das tuas propinas, os livros da tua irmã, transportes. Tu julgas que não te damos como dávamos dantes porque não queremos dar-te? Passa-te pela cabeça que eu e tua mãe não sofremos por te ver sofrer? As tuas deceções são a nossa amargura. Hoje passei pela rua do Alto e sabes o que vi? O despejo duma família. Estavam a despejá-la por penhora e, segundo se dizia na rua, já lhe tinham levado o carro, há dias. Meu filho, eles gastaram o que não tinham pediram emprestado para viver à rico, férias caras, roupas de marca, automóvel de luxo… lembras-te de tu nos dizeres, se eles podem porque não podemos nós de igual maneira? Meu filho, foge de deveres que o pagamento é certo. Estás a falar pelo governo, pai?  Não, mas confesso que há muito de semelhante. Já que falas em governo,  penso por que razão não lhe perguntam se não dá porque não quer ou  não dá porque não tem ? Voltemos à nossa família para não estarmos a desviar a conversa. Não fazem omeletas sem ovos. As fatias grandes só podem vir de bolo grande. Nós não herdamos pratas, ouro, rendas, ações obrigações ou dinheiros. O que ganhamos é o nosso orçamento. Compreendes por que razão não te  podemos dar mais do que o que temos? Depois de alguns momentos de reflexão, o rapaz levantou-se e, tapando os ouvidos, foi para a rua gritar, mas eu quero.




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