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Um homem lúcido ou visionário?

Desde muito cedo, aí nos meus tempos de escola primária e da doutrina, comecei a nutrir uma enorme paixão por tudo que voava. E a par dos pássaros que observava no seu suave planar e nos seus voos rasantes, sentia também uma fascinante curiosidade pelos passarões mecânicos que rasgavam o céu da aldeia em que nasci. E foi por estar próximo do Campo de Aviação de Palmeira que lá passava horas a fio, junto ao hangar, admirando a mestria com que cada aluno piloto, na sua aula de pilotagem, era ensinado a fazer levantar e aterrar o avião em segurança. Tendo sido a minha assídua presença que fez com que me familiarizasse com todos, mas sobretudo com o instrutor de serviço no ACB o qual, mais tarde, me fez o baptismo de voo.

Narciso Mendes
20 Out 2013

Os anos foram passando e, apesar da diferença idades, a amizade entre mim e o veterano piloto foi-se alicerçando com o devido respeito. E as nossas conversas só foram interrompidas pela minha passagem pela FAP, em 1969, o que, contudo, acabou por satisfazer a minha curiosidade em relação à aviação. Conhecimentos que, posteriormente, serviram para alimentar muitas das nossas conversas.
Português, de fortes convicções, chegado o 25 de Abril de 1974, em presença  da confusão que pairava no território nacional, embarcou para um país da América do Sul, Brasil. Aí, foi efectuar a rega aérea de áreas extensas de cultivo, sem, contudo, deixar de regressar, nas férias, para visitar a sua família e amigos.
Quando se reformou, voltava todos os anos, pelo S. João, tantas eram as saudades da sua cidade de Braga. Deslocações essas, em que tive sempre o privilégio de nos encontrarmos. Mas, sempre que enaltecia a sua condição física, apesar da sua proveta idade, respondia-me em tom um pouco irónico:” ora, ora meu caro amigo, já estou na fase de pré-cadáver. Do bilhete de ida e volta que tirei, quando nasci, já só me falta gastar o de volta”. Ora, por entre recordações e novidades, surgiam as suas queixas e desabafos, como a que sentia por ver Portugal a ser tomado de assalto por gente incompetente e oportunista. Mas a mágoa que mais fundo lhe calava, era o facto de terem feito nascer um autódromo em cima do aeródromo da sua cidade. O que, em plena geração da roda, arruinou de vez com o que poderia ter sido um “semi-
-aeroporto”, com pistas opcionais, para aeronaves de médio porte.    A sua perspectiva do futuro, fazia-o imaginar um mundo agilizado pelas novas tecnologias, para o qual seriam necessárias avançadas mentalidades para o entender, tomando medidas por antecipação. Ou seja, os que o governam, dado os constantes avanços pela mão da investigação cientifica, deveriam encontrar novas formas de colmatar as ocupações humanas que as máquinas subtraem, a fim de manterem a sua subsistência.
Aos 90 anos de idade, à época, este homem dizia-me: «Sabe? Toda esta “lata” que inunda o céu e a terra, que usa rodas e tudo transporta, um dia desaparecerá. O que fará eclipsar milhões de empregos, pelo colapso dos aeroportos, empresas férreas, marítimas, de viação, etc.» E acrescentava: «quando a ciência conseguir usar, com sucesso, o princípio do enlace quântico, (experiência retardada pelos cientistas, dado o seu impacto no mundo), que consiste na desmaterialização de um objecto num ponto e voltar a fazê-lo aparecer em qualquer outro, previamente escolhido, fará surgir o já chamado “teletransporte”, o qual já é uma realidade nos laboratórios mais avançados da física. Embora fazê-lo com as pessoa, ainda seja uma fantasia e com muitos obstáculos a vencer».
Partindo do princípio de que toda a evolução tecnológica parte da ficção científica, bastará revermos filmes como “A Guerra das Estrelas, e outros, para obtermos uma antevisão do que irá ser “o transporte quântico” na futura geração – sem rodas – que irá revolucionar o planeta, embora continuando a protestar por não ter emprego e a emigrar.
Casimiro Guimarães, piloto de aviões, homem lúcido ou visionário? Paz à sua alma.




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