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Mais uns que viveram acima das nossas possibilidades

Há, no espaço público, abundantes vozes a usar expressões começadas por “nós”, sem que se saiba exactamente quem é abrangido pela primeira pessoa do plural do pronome pessoal. Quando se diz, como estamos saturados de ouvir, que “nós vivemos acima das nossas possibilidades”, não se percebe quantos de “nós” se quer integrar nesse “nós”. Quando se pretende que o “nós” dos que viveram acima das possibilidades nos inclua a todos “nós” ou à maioria de “nós”, estamos na presença de uma falsidade.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
20 Out 2013

E esse engodo decorre do interesse de atribuir a todos nós a culpa pelos inenarráveis sarilhos em que estamos metidos. Por vezes, há, no entanto, revelações que tornam óbvio esse logro. Tais notícias exemplificam eloquentemente quem é que, entre nós, andou de facto, a viver acima das possibilidades. E à custa de todos nós.
Algumas dessas notícias encontravam-se, no fim da semana passada, no Jornal de Notícias, em diversos textos a propósito da derrapagem em muitos milhões de euros do custo do novo Hospital Pediátrico de Coimbra. Tratou-se de uma “fraude”, garante o ex-fiscal residente da obra, João Costa da Silva, que foi deputado do PSD entre 1987 e 1991 e presidente do Sindicato da Construção Civil. A denúncia tem o condão de, mais uma vez, exibir com toda a clareza como se cometeram (e, com certeza, continuam a cometer) tantas fraudes que nos empobreceram (e empobrecem). Na verdade, podemos olhar para esta história e, adaptando a escala, multiplicá-la exaustivamente.
João Costa da Silva, que foi fiscal residente da obra até ser proibido de nela entrar, por causa das denúncias (retomadas na entrevista que o jornal publicou no sábado) de uma enorme quantidade de defeitos da obra e de uma fraude com a invocação da existência de lençóis freáticos para aumentar em muitos milhões de euros os ganhos do empreiteiro. “Houve troca de materiais de primeira qualidade por materiais de segunda”, disse João Costa da Silva, apresentando alguns exemplos: “a obra tinha de ser rebocada e o reboco foi trocado por massa podre; o revestimento previsto era de primeira qualidade e está lá refugo; o alumínio previsto era termolacado e foi aplicado alumínio escovado, com uma diferença de preço na ordem dos 40%”. Questionado sobre se “houve corrupção”, o ex-fiscal da obra deu a resposta que a cautela impõe: “Isso não posso dizer, não assisti”. Depois, acrescentou: “Ninguém acredita em bruxas mas que as há, há. Não estamos a falar de uma obra de 500 nem de 50 mil euros, estamos a falar de milhões”.
A conversa transitou logo a seguir para o facto de o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) ter corroborado que havia uma linha de água subterrânea, o que permitiu ao empreiteiro facturar mais alguns milhões. “O LNEC é uma coisa, os rapazinhos que lá foram é outra. Meteram-se dentro do contentor e de lá não saíram. O que eles viram, nos caboucos da obra, era água da chuva, não eram águas freáticas, que não existem. Também nunca me fizeram a pergunta, e sabiam que eu era fiscal”, nota João Costa da Silva, que julga “muito estranho” o procedimento. De resto, afirma, “sujar sapatos na lama é uma coisa muito complicada”.
As aldrabices que permitem inflacionar o custo das obras, a corrupção, as obras desmesuradas inacabadas, as obras dispendiosas que pioraram o que havia, as obras inúteis realizadas para mostrar obra, etc., etc. É volumoso o compêndio de esbanjamento de dinheiro, que mostra muito bem como “eles” têm andado a viver acima das nossas possibilidades.
Essa “mentira colossal”, que nos tem “intoxicado”, dos que papagueiam que “os portugueses são uns irresponsáveis esbanjadores vem acompanhada de uma outra, a de que não haveria alternativa à política de austeridade que nos fustiga”, escreve Paulo de Morais, vice-presidente da organização não-governamental Transparency International e ex-vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, em Da corrupção à crise. Que fazer? (Lisboa: Gradiva, 2013). A austeridade, prossegue o autor, “é-nos apresentada como um castigo justo, face a um alegado comportamento crónico de exagerados hábitos de consumo”.
Para Paulo de Morais, “estas mentiras constituem um colossal embuste”. É que, quando a crise começou em 2009, apenas 15% da dívida privada dos portugueses resultava da aquisição de bens de consumo, de férias, viagens ou equipamentos. Assim sendo, “os portugueses e os seus hábitos de consumo serão assim responsáveis por 15% da componente privada da crise. E não são responsáveis, e muito menos culpados, pelo facto de a maioria do crédito [70%] ter andado a financiar a especulação imobiliária”.
Para o ex-vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, “nem os portugueses merecem castigo, nem a austeridade é inevitável. Não é culpando e castigando o povo pelos erros da sua classe política que se resolve a crise. Resolve-se combatendo as suas origens, o regabofe e a corrupção. Este combate, sim, é a única alternativa séria à austeridade a que nos querem sentenciar e ao roubo fiscal de que temos sido vítimas”. Quando um país precisa de reboco, não lhe devemos colocar massa podre.




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