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A realidade política

Na política nada acontece por acaso. Tudo está devidamente pensado e planeado ao pormenor para se evitarem ondas de choque difíceis de controlar. O controlo na política é total e tudo o que se diz e o que se faz tem objectivos bem concretos e ganhos bem contabilizados. Não há espaço para amadorismos, nem para decisões levianas e impensáveis, porque o que está em jogo são interesses pessoais, de grupos (lobbies e partidos) e só em última instância o interesse do país e dos cidadãos.

Armindo Oliveira
19 Out 2013

Tudo se joga num tabuleiro obscuro com dinâmicas, com estratégias, com metodologias e com decisões amplamente estudadas, discutidas e avaliadas pelas cúpulas partidárias em que o cidadão não é tido nem achado neste processo de construção político-social, a não ser para depositar o seu voto que é resultado, muitas vezes de políticas ilusórias e de promessas fantasiosas marcadas num tempo preciso. Os erros que se cometem nas governações emoldurados por grandes cenários de interesse público e de desenvolvimento social, inserem-se num quadro de incapacidade de se gerir com parcimónia e equidade os interesses bem localizados dos grandes grupos económicos e financeiros que algemam todas as decisões dimanadas do poder central.
Durante anos, os políticos nacionais criaram a este país, uma situação de extrema debilidade financeira que agora só nos resta ajoelhar e clamar por piedade e por perdão junto dos nossos “benfeitores” que nos vão dando as migalhas da humilhação e da miséria. Foi esta negra realidade que se construiu com a nossa inteira cumplicidade. Vimos o país a descambar e não fomos capazes de vislumbrar o abismo que se aproximava. Somos engolidos por tretas de políticos impreparados, demagógicos e irresponsáveis. E o resultado é triste e revoltante para vida de todos nós.
E agora vemo-nos neste estado lastimável de desespero, de desemprego e de falta de esperança num futuro que se queria mais tranquilizador e mais prometedor. Austeridade com cortes cegos nos cidadãos é a receita mágica imposta pelos nossos financiadores que nos querem ver a penar para aprendermos a ser responsáveis, mais comedidos e mais despertos. Permitimos que a corrupção medrasse aos nossos olhos e demos o aval eleitoral àqueles que “roubavam, mas faziam obras”. Permitimos que o compadrio assentasse arraiais nas empresas públicas e que o clientelismo fosse considerado uma prática normal para quem detinha a cadeira do poder. Tínhamos um medo atroz aos homens do poder e, no fundo, só aspirávamos, algum dia, a entrar na rede das influências para beneficiar das regalias e dos regabofes que se engendravam à margem dos valores e dos princípios democráticos. Fomos e somos assim: um povo que se deixa vergar com facilidade por coisa pouca e, nos momentos de aperto, sem capacidade de reacção perante as injustiças e as más práticas que giram à nossa volta. Somos assim, porque temos na mente uma cultura de submissão e acrítica. Somos assim, porque gostamos de bajular.
Nesta análise de previsibilidade política e de comportamentos esguios causa-me espanto a indignação e a revolta de Mário Soares que numa verborreia já bem conhecida e de miopia partidária rotula alguns governantes do governo de Passos Coelho como delinquentes, os quais têm que ser julgados, mal terminem funções, quando ele sabe muito bem quem nos colocou nas mãos do FMI e nos endividou até à insolvência. É fácil de perceber o azedume do “pai da democracia” pois os ditos por ele proferidos inserem-se num quadro de ressabiamento de política angolana, cujos governantes angolanos sabem bem quem são “as elites corruptas e ignorantes” deste país que fizeram chorudos negócios com as suas empresas.




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