Fotografia:
Divagando no supostamente absurdo: Matemos a vaquinha dos subsídios

Por um local muito ermo de um país distante, passava um mestre e o seu discípulo, quando avistaram um casebre com gente suja e esquálida a viver nele. O mestre perguntou de que viviam. Da vaquinha,responderam, e apontaram-na. Dá-nos leite, queijo, manteiga, vitelos, e pele para fazer vestuário. Mestre e discípulo seguiram caminho. Poucos metros andados, o mestre parou e disse ao discípulo: vês aquela ravina? Vai lá e atira a vaca dela abaixo. Mestre! Que vai ser daquela pobre gente sem a vaquinha? Vai morrer de fome!

Mário Salsa
18 Out 2013

Faz o que te digo! E o discípulo fez!
Volvidos anos, adregou o discípulo, agora já mestre, passar por lá e encontrou não o casebre de outrora, mas uma casa acolhedora e até confortável com gente bem nutrida a viver nela, e perguntou para onde teria ido aquela gente faminta que anos atrás lá estava.
Não, ninguém saiu daqui! Essa gente somos nós!
Mas vocês viviam da vaquinha e a vaquinha morreu, como sobreviveram? Amanhando a terra, abrindo poços, fazendo hortas, plantando árvores de frutos, criando gado, vendendo os nossos produtos e deitando abaixo o desconfortável casebre e construindo a casa que veem.
O estado de Portugal não é muito diferente, mas é desigual.
Os da pequena história viviam da vaquinha, mas não tinham dívidas! Todos trabalharam em favor de todos. Portugal não vive da vaquinha nem de nada, porque nada tem. Vive de empréstimos, só pagáveis com novos empréstimos, carregados de juros, à boa maneira da Dona Branca, a “banqueira do povo”. E cada um puxa para seu lado. 
É claramente um caminhar para o suicídio, de que se não veem condições de saída.
Entre nós, parte significativa da população ativa vive da vaquinha, aqui na forma de subsídio de desemprego. Trata-se de uma prática inibidora da pessoa, de a aconchegar à moleza, de lhe criar hábitos de preguiça, de deixa andar, de estar de fora, de lhe diminuir o amor-próprio, dando-lhe a esmola da sobrevivência.
Há, pois, que matar o subsídio, do mesmo modo que foi morta a vaquinha.
O cidadão tem que viver do seu trabalho, não de subsídios. E trabalho há, e muito, muitíssimo mesmo, no refazer do Portugal desfeito: na agricultura abandonada, na indústria deixada destruir-se, na pesca amolecida e na conservação da floresta sistematicamente reduzida a cinzas, e, com este refazer, baixará significativamente o desemprego; a economia sairá das trevas; a família ressuscitará e o futuro deixará de ter o negrume que hoje tem.
Esta reconstituição é a tarefa suprema da governação. Não suporta dilação, não aceita esperas. Pode o governo, em seu lugar, esfanicar-se em resolver picuinhas, mas de essencial nada fez. É comparável aos que muito parlam, mas que nada dizem.
É, sem dúvida, uma tarefa ciclópica, mas tem de ser levada a efeito com toda a determinação.
É preciso desencantar e prosseguir todos os recursos da Nação, que os há! É preciso fugir à dependência dos outros!
Portugal tem de despertar e fazer chegar esse despertamento aos cidadãos em quem confiou para efetuar a governação do País e dos interesses do seu Povo.
Todo o cidadão tem de ser empenhado na tarefa.
Para tanto, para que a sinta, para que a viva, é indispensável que tenha exato conhecimento das causas das enormes agruras por que está a passar, se são criação do governo em funções ou derivam de ações governativas de períodos anteriores. É o exato conhecimento dessa situação que o Povo tem o direito de ver séria e honestamente esclarecido.
Se resulta do governo em funções, então o que há a fazer é pedir ao Senhor Presidente da República que demita o governo pela traição ao povo que o elegeu, e pedir à justiça que o encarcere como merece.
Mas se – com falhas, embora, da muita pressão e atarefamento em que se vê forçado a agir e da própria imperfeição humana – o que faz não tem outro fim que o de tirar o País da pestilenta estrumeira para onde outros, por fantasia, por inconfessáveis interesses, por incompetência, ou simples estupidez, o atiraram, então a agressividade e distrate alanzoados por certos grupos estão longe de ter a compreensão de mentes normais.
Há que acabar com o regateio, com o mexerico que por aí anda, e parece ser tão caro aos media, desviando o Povo da linha evolutiva do Ser, passando, antes, a elucida-lo, a restituir-lhe valores e a firmar-lhe responsabilidades, de modo a que seja justo na verdade e inconformável na mentira, tão alardeada hoje. Que pense por si e não entregue aos caciques o que deve e não deve dizer ou fazer.
No País, nota-se que há os que denodadamente remam para vencer a correnteza que arrasta o barco para o precipício, enquanto outros não só não fazem uso dos remos como insultam e desmoralizam os remadores.
Não se percebe o que desejam! Será que desejam o afundamento definitivo do barco ou esperam que alguém ou alguma coisa venha pô-lo em terra firme?
Ou somos nós a fazer tudo para sair do buraco ou ninguém nos tirará de lá. Não se espere que venham outros salvar-nos, porque, se nisso confiarmos, corremos o risco de ficar a aguardar pelos tempos fora a vinda de El Rei Dom Sebastião, como outros infrutiferamente ficaram.
Em tempos escrevi o artigo: “Não me peçam para ser ministro porque não vou!” Hoje creio que só um grande espírito de servir poderá aceitar o cargo, pois sabe que carrega, nesse exato momento, a pesada cruz do seu duro e doloroso calvário. A sua vida vai ser devassada em todos os domínios. Vai ouvir os insultos mais primitivos, mais ordinários, mais barrascos. De formigas gerar-
-se-ão montanhas. E se não houve ainda alguma forma de linchamento popular é devido a escoltas protetoras.
Não virá longe o tempo em que Portugal não será capaz de formar um governo com os seus mais respeitáveis, competentes e honrados cidadãos, devido ao chorrilho de insultos e incómodos, que o lugar atrai.
E, todavia, o barco em que navegamos exige um capitão experimentado, firme nas decisões e que ame verdadeiramente todos os que nele vão e defenda com determinação a embarcação que lhe foi confiada.
É a fuga à miséria e à fome que o reclama! É o grito de angústia e esperança que se exala da Nação morrente! É a súplica dum povo exangue traído e lançado na miséria!




Notícias relacionadas


Scroll Up