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Os cristãos e a política

O comunicado publicado pelo Conselho Permanente da Conferência Episcopal Portuguesa, a propósito das últimas eleições autárquicas, exorta os cristãos «a intervir no campo da política, contribuindo para a construção do bem comum». Em 7 de junho, num encontro de alunos e ex-alunos dos colégios jesuítas da Itália e Albânia, respondendo a uma das perguntas feitas por um jovem, o Papa Francisco afirmou ser um dever, uma obrigação do cristão, envolver-se com a política embora seja “muito suja”, porque estando nesse âmbito se pode trabalhar pelo bem comum.

Silva Araújo
17 Out 2013

O Papa disse que “envolver-se na política é uma obrigação para um cristão. Nós não podemos fazer como Pilatos e lavar as mãos, não podemos”.
“Devemos participar na vida política porque a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum. E os leigos cristãos devem trabalhar na política”, assegurou o Santo Padre.
“Alguém me dirá: ‘mas não é fácil’. Tampouco é fácil chegar a ser sacerdote. Não são coisas fáceis porque a vida não é fácil. A política é muito suja, mas eu pergunto-me: porque é suja? Por que os cristãos não estão revestidos do espírito evangélico”.
O Santo Padre assinalou também que “é fácil dizer ‘a culpa é dele’… mas e eu, o que faço? É um dever! Trabalhar pelo bem comum é dever de um cristão! E muitas vezes para trabalhar o caminho a seguir é a política”.
 
É imperioso que o cristão se assuma como membro de duas cidades: a de Deus e a dos homens. Como membro de duas comunidades: a Igreja e o Estado.
Ser cristão não consiste apenas em rezar e em frequentar os sacramentos. O cristianismo é uma forma de ser e estar no mundo. O cristão é convidado a estar no mundo sem se mundanizar. Estar no mundo sem trocar os valores do Evangelho pelos critérios mundanos.
A atividade do cristão não se restringe aos muros do templo ou da sacristia. É-se – ou deve ser-se – cristão no templo e fora dele: na família, na escola, no trabalho, no desporto e nas diversas formas de lazer, nas várias formas de associativismo na quais o sindicalismo está incluído.
É-se cristão quando se assiste a um jogo de futebol, quando se vê um filme, quando se conta uma anedota, quando se escolhe e compra um livro, quando se oferece um presente, quando se exerce uma profissão. Não há atividade onde o cristão, que também é cidadão, não tenha lugar. Exige-se, naturalmente, que aí atue em coerência com a fé que professa. Sem distintivos, mas com a vida. Que atue cristamente.
 
A militância política é campo aberto à atividade dos fiéis leigos e não dos clérigos. É aos fiéis leigos que compete o batismo das realidades temporais. Releiam-se os documentos conciliares: a constituição pastoral Gaudium et Spes (A Igreja no mundo atual), particularmente os números 74, 75 e 76, e o decreto Apostolicam Actuositatem (Apostolado do Leigos).
Que os clérigos saibam resistir à tentação de aí despenderem tempo e energias muito necessários ao específico da sua missão.
 
«O apostolado no meio social, isto é, o empenho em informar de espírito cristão a mentalidade e os costumes, as leis e as estruturas da comunidade em que se vive, são incumbência e encargo de tal modo próprios dos leigos que nunca poderão ser plenamente desempenhados por outros» (Apostolicam Actuositatem, 13).
«Os católicos sintam-se obrigados a promover o bem comum na dedicação à pátria e no fiel cumprimento dos deveres civis, e façam valer o peso da sua opinião de modo que o poder civil se exerça com justiça e as leis correspondam aos preceitos morais e ao bem comum» (Idem, 14).
 
O campo da política é um dos setores de atividade onde é notória a ausência de cristãos agindo em coerência com a fé. Há lá muitos cidadãos batizados, mas dá a impressão de que os princípios cristãos, às vezes, ficam na gaveta. Se agissem em coerência, há leis que não teriam passado e decisões que se não teriam tomado.
 
Não defendo a existência de partidos cristãos, mas a existência de cristãos nos partidos. De cristãos que atuem de harmonia com a própria consciência. De cristãos que publicamente usem do direito de serem diferentes e de discordarem. De cristãos que, à hora de votarem, ouçam mais a voz da consciência do que a do espartilho da disciplina partidária.
 
Dir-me-ão que estou a sonhar. Se estou não deveria estar. Estou persuadido de que, se chegámos onde chegámos, é porque também muitos de nós, os cristãos, nos calámos quando devíamos ter falado e não estivemos cristamente onde deveríamos ter estado. É porque pusemos os interesses e a ideologia partidária acima do que deveriam ser as nossas convicções. É porque permanecemos em casa quando deveríamos ter saído para a rua.




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