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A partícula de Deus

No passado dia 8, a Real Academia Sueca das Ciências atribuiu o Prémio Nobel da Física ao belga François Englerd, de 80 anos, e ao britânico Peter Higgs, de 84 anos, pela descoberta, no ano passado do “Bosão de Higgs”, também conhecido por “partícula de Deus”. Trata-se de uma partícula subatómica mais procurada de todas, porque, segundo os cientistas, permite explicar dois dos maiores mistérios da física: a origem da massa das partículas fundamentais que constituem a matéria e o modo como essa matéria e energia se relacionam, ou seja, pretende explicar a existência do Universo onde vivemos.

Narciso Machado
16 Out 2013

Esta descoberta é considerada histórica, uma vez que em 1964, o referido cientista britânico Peter Higgs previu a existência do bosão que agora tem o seu nome. Portugal é membro da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN) desde 1985 e cientistas portugueses participaram na experiência do grande acelarador de partículas do CERN que permitiu a referida descoberta. O Grande Colisionador de Hadrões (LHC) recria, em pequena escala, as condições do Universo após o Big Bang  – o evento cósmico que o criou há 13,7 mil milhões de anos –, para podermos saber por que é que o Universo tem a configuração e as propriedades que hoje conhecemos. Mas, mesmo quando tiverem certezas consolidadas sobre o Higgs e as suas propriedades, os cientistas afirmam que a humanidade ficará a conhecer apenas 4% do Universo. Os outros 96% continuarão a ser um grande mistério.
Esta descoberta veio reacender a discussão entre filosofia, religião e ciência.
Filosofar é refletir, aprofundar ou tentar responder, entre outras, às seguintes perguntas: O que podemos saber? O que devemos fazer neste mundo? O que nos é permitido esperar? O que é o homem?
O ensino da filosofia tem por objetivo, antes de tudo, criar o hábito e o gosto pela reflexão. Pode dizer-se que a Filosofia é, por natureza, a procura da verdade, sem que esta palavra signifique um Absoluto único.
A história das religiões ensina-nos que através dos tempos as religiões têm considerado a Filosofia ou manifestamente hostil ou complementar à sua compreensão. No entanto, hoje cada vez mais autores se inclinam a considerar que filosofia e revelação, embora diferentes, se podem aproximar, desde que se apliquem, em vez de serem consideradas como coisas fixas. Na Idade Média, o judeu Maimónides (1135-1204), o muçulmano Averróis (1126-1198) e o monge dominicano S. Tomás de Aquilo (1228-1274) foram três filósofos que tentaram essa aproximação entre fé e razão. Na atua-lidade, é de salientar o contributo do Papa Bento XVI que ao longo da sua carreira, quer como professor, quer como Papa, deu também grande importância ao tema “fé e razão”, com pensamentos muito úteis para o diálogo inter-religioso.
A procura religiosa admite que o Homem possa procurar, a partir desta vida, uma coisa diferente daquilo que a vida nos pode oferecer. Todas as religiões aceitam essa procura, mesmo que nem todas lhes dê o mesmo sentido ou indique, da mesma maneira, uma realidade superior a atingir. Em relação à filosofia, a religião é menos elitista e oferece um quadro mais acessível para elevar o espírito. Isto não significa que a exigência religiosa seja inferior, mas que se coloca num outro plano.
Relativamente à ciência, o caso Galileu – que se manifestou contra a teoria heliocêntrica – revela ser possível compreender o mundo através da ciência e continuar
a ser religioso, porque a ciência ilumina o caminho de Deus e ajuda o homem a apreciar a sua obra prima – o Universo.  Hoje, são já muitos os cientistas proe-minentes que conseguem conciliar a ciência e a religião na procura de respostas sobre o universo, na certeza de que a ciência nunca dará respostas de natureza espiritual.
A filosofia clássica, com S. Tomás de Aquino, procura chegar a Deus através do princípio do movimento e do primeiro motor ou através da primeira causa que explica o encadeamento das causas e dos efeitos.
Afinal quem criou a partícula de Higgs que no dizer dos cientistas terá contribuído para origem ao Universo?  Visto que nada pode sair do nada, há que concluir que existe um Ser eterno e necessário e uma inteligência superior que governa o universo e explica a sua ordem.




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