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O número de domingo à noite

Há uma semana atrás, foi posta a circular a informação de que era intenção do Executivo cortar as pensões de sobrevivência a viúvos que auferissem mais de 600 euros de rendimento. Foi dito, escrito e comentado, como se a medida estivesse fechada ou quase. Acontece que, pelos vistos – foi-nos dito de viva voz pelo vice-primeiro-ministro –, é mentira. Secundado por alguns (poucos) crentes, fez-se crer que o Governo jamais faria isso, pelo menos o CDS-PP não permitiria que isso acontecesse. A verdade, é que já nada nos surpreende no Executivo actual.

Luís Martins
15 Out 2013

A tese de que não há inocentes no processo colhe e tem viabilidade. Acredito que a fuga de informação foi intencional com o intuito, antes de tudo, de testar a receptividade da medida e, depois, de conseguir um efeito de alívio e de aceitação da mesma por parte dos cidadãos. O objectivo foi conseguido. Primeiro, foi o tremendo susto que apanharam os idosos deste país e os que dependem dos subsídios em causa, designadamente, descendentes desempregados, a que a crise económica não é alheia. Depois, a surpresa geral decorrente do facto da medida ter perdido, depois da intervenção de Paulo Portas, o poder de devastação anunciado inicialmente.
Foi acusado de falta de escrúpulos e de irresponsabilidade quem pôs a circular a suposta intenção do Governo. Mas a falta de escrúpulos e a irresponsabilidade estão do lado deste, não de quem comentou antes a notícia. O país todo comentou. O Governo deixou levianamente que isso acontecesse, não dizendo nada de relevante durante uma série de dias. Tenderei mesmo a pensar que aquele alimentou a presunção da pertinência, da oportunidade e da intensidade do corte nas pensões de sobrevivência. Não colhe a explicação que foi dada anteontem de que faltava a análise técnica da medida para poder ser anunciada em sede própria. A verdade, é que ela foi mesmo posta a circular e, acredito, com um propósito sórdido.
Mesmo que a origem da fuga de informação não tivesse estado no Governo, este devia ter desmentido categoricamente a notícia. Não o fez. O propósito, esse, podemos adivinhá-lo. Sem grande dificuldade. Agora, ninguém consegue desmentir que a medida não tivesse sido desenhada tal qual apresentada inicialmente, certamente em cima do joelho, para abranger os pensionistas com recursos acima dos 600 euros. Nem sequer a explicação dada no decorrer da reunião extraordinária do Conselho de Ministros conseguiu desfazer a dúvida sobre a intencionalidade da fuga de informação. A confirmação é a ausência de desmentido cabal e absoluto, oportuna e atempadamente, por parte de quem de direito. Tão simples como isso.
Paulo Portas não conseguiu sacudir a água do capote, o mesmo é dizer, não conseguiu desprender-se das medidas de austeridade. Continua na linha de fogo, ligado umbilicalmente a elas. Não foi o número de domingo à noite que o redimiu das promessas não cumpridas relativamente aos pensionistas. Há muito que perdeu a credibilidade, porque há muito que ultrapassou a linha vermelha. É já certo e sabido que deixou de respeitar o mandato do seu eleitorado. Pode ter sossegado, por agora, alguns eleitores, mas logo mais, quando for apresentado o Orçamento de Estado para 2014, serão desfeitas as dúvidas dos mais fervorosos apoiantes.
Sou dos que pensam, no meu caso cada vez com maior convicção, que o Presidente da República cometeu um erro crasso, de palmatória, quando, no verão, não dissolveu a Assembleia da República e não convocou eleições legislativas antecipadas. O episódio verdadeiramente teatral de Paulo Portas, no domingo, é a prova provada de que o actual Governo é trapalhão e não tem emenda, que a governação é uma farsa e o presidente do CDS-PP o farsante-mor. Já reparamos nos seus dotes. E não são precisas outras explicações.




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