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Crónicas do verde

É por estes dias que, nas adegas, o mosto borbulha sob a manta e se completa mais um ciclo. A seiva abranda e caem as folhas. Indiferente ao quotidiano dos homens, a natureza ajusta-se aos dias de menos luz e calor. Essa luz e esse calor que trouxeram a doçura aos frutos da videira; que agora se transmutam, com o labor das leveduras, no espírito do vinho. Os ciclos da vida vegetal têm sido, desde tempos imemoriais, a sinfonia que marca a vida dos homens do campo. Os dias de uma ruralidade ancestral eram marcados por ritmos empíricos que iam das sementeiras às colheitas.

Fernanda Lobo Gonçalves
13 Out 2013

Na urgência dos afazeres urbanos, entretidos a chegar a horas a todo o lado, pendurados num telemóvel ou absortos com o ipad, mal damos conta de que as etapas da natureza se sucedem, e apenas substituímos, instintivamente, a roupa leve pelo agasalho.
Mas, desengane-se o leitor: não é de nostalgia que trata esta crónica, não é o passado que queremos evocar. Queremos, isso sim, falar do presente, de um certo “regresso à terra” de que se vai falando. De um regresso, inevitável ou desejável, que se vai, pouco a pouco, instalando na nossa sociedade e fazendo despertar as nossas memórias.
E que queremos dizer com isto? Estamos a falar, por exemplo, daquele que é considerado, nos tempos que correm, o sector mais dinâmico da economia portuguesa – a agricultura. A agricultura portuguesa tem-se imposto com produtos de excelência: vinhos, frutos, hortícolas, azeite, etc., muitos dos quais premiados em certames internacionais. Mas falamos também de um certo “do it yourself” (faça você mesmo) uma corrente que, como quase tudo, com alguns anos de atraso, chegou finalmente a Portugal. Criar o seu próprio espaço de contemplação ou o seu próprio jardim; plantar um pequeno canteiro de ervas aromáticas e condimentares; ou uma pequena horta no quadradinho do quintal. São tarefas ao alcance de quase todos e, através das quais, podemos prestar homenagem à vida: semear, regar, cuidar, colher e… saborear. Um ritual diário que, hão-de compreender, se ajustará ao ritmo dos dias e que nos traz aquela serenidade e distracção de que tanto necessitamos.
E porque a vida regressa sempre na natureza que se transforma, é no outono que devemos começar a preparar a próxima primavera.




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