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Além do 2.º resgate

Nas últimas semanas, a possibilidade de um 2.º resgate internacional a Portugal tem sido amplamente debatida, e não é caso para menos, mas talvez a reflexão devesse ser mais profunda e não tão focada no curto prazo como a política em Portugal tão desastrosamente tem sido discutida. É óbvio que encarar seriamente o problema não pode ter em conta hipocrisias que tanto ouvimos no discurso de alguns líderes políticos, querer não aumentar impostos nem cortar na despesa pública e, ainda assim, diminuir o défice e cumprir com os nossos credores ou demonstra uma falta de noção da realidade incompreensível para quem tem intenções de ocupar cargos públicos ou uma falta de carácter indigna de merecer a confiança dos portugueses.

José Baptista
11 Out 2013

A diabolização de FMI, BCE e Comissão Europeia também nada tem de construtivo. A ‘troika’ não quer o nosso mal, pelo contrário, como credor que é, tem noção de que quanto melhor estivermos, mais facilmente cumprimos os nossos compromissos financeiros. O que a ‘troika’ não pode aceitar, mais uma vez valendo-se da sua posição de credor, é que o país encete por um caminho de fuga para a frente que o faça, mais tarde ou mais cedo – e seria mais cedo a fazer-se como alguns apregoam –, entrar em incumprimento. Facilmente se perceberá a sua posição. Emprestar dinheiro a uma instituição descredibilizada implica certas garantias e um poder influenciador sobre essa instituição, de modo a que esta não volte “a meter a pata na poça”.
Portanto, chegando ao ponto fulcral, o 2.º resgate, é triste ver a forma simplista como este tem sido apresentado, mais tempo perante a asa da ‘troika’ e mais tempo de contenção. O resto é instalar nas pessoas o medo dos credores internacionais. Ora, a necessidade de um 2.º resgate é preocupante no curto prazo, mas é hora de enfrentarmos os nossos problemas pensando a longo prazo e aí o papel de um segundo resgate é até algo ambíguo. Se levarmos agora a cabo as reformas estruturais de que tanto se tem falado, não precisaremos de 2.º resgate e teremos certamente um futuro melhor após este período mais difícil. Se não as rea-lizarmos, o caso muda de figura. Escapando ao 2.º resgate, será apenas uma questão de mais alguns anos a viver no que parece o eterno fado português da crise permanente até voltarmos a necessitar de ajuda internacional. Havendo 2.º resgate, as dificuldades que passaremos serão mais prolongadas e mais violentas e a nossa reputação internacional sofrerá um duro revés. Mas a ‘troika’ ganhará mais poder e força para nos obrigar a mudar os nossos hábitos estatais e, num futuro mais distante, sairemos a ganhar.
Então, por que razão esperamos? A resposta é simples e prende-
-se, lá está, com esta visão simplista de olhar apenas para hoje e amanhã e nunca para um futuro mais longínquo.
Durante anos, a intenção de reduzir a despesa do Estado sempre esbarrou em forte contestação. Perante isto, os governantes aumentavam os impostos, decisão que, apesar de contestada, o era menos que os cortes, no entanto, agir assim não é sustentável, não podemos aumentar mais impostos – aliás, haverá sim uma tremenda necessidade de os baixar –, mas tal só é possível cortando na despesa. É matemática simples: ou recebo mais ou gasto menos.
A solução não é simples, nunca é fácil cortar, mas, por difícil que seja, é, ainda assim, o necessário, o essencial a fazer se queremos um país com futuro. Menos funcionários públicos e uma reforma no sistema de pensões – que inclua um teto máximo – serão sempre as mais significativas mudanças, às quais se deve juntar um extensivo corte de vários poucos que juntos consomem muito do rendimento arrecadado pelos impostos.
‘Cortar, cortar, cortar’, não é à toa que tanto se recorre a esta expressão. É porque é o necessário, é porque é esse o caminho a seguir se queremos realmente ser um país de topo e não apenas viver de pequenas vitórias casuais do destino. Sejamos liderantes, enfrentemos as dificuldades e tomemos as decisões difíceis para chegarmos mais longe, para nos afirmarmos pelo que somos, mais que pelo que fomos ou pelo podíamos ter sido.




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