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A descendência

Um jovem perguntou ao avô como é possível Portugal ser um dos países mais pobres da Europa ocidental, quando somos descendentes de pessoas que deram novos mundos ao mundo, se descobriu o Brasil, se viajou pela Índia, Japão e África, de língua própria e com traços de cultura deixados, que ainda hoje sobrevivem?O avô que lhe respondeu: “Nós descendemos dos que ficaram cá”. Portugal, centenas de anos já passados, umas vezes melhor e outras pior, encontra-se no início deste século a respirar em águas paradas e estagnadas, aos pontos de não serem os portugueses a mandar ou a gerir o país: gerem-nos, tangem-nos!

Artur Soares
11 Out 2013

Há dias atrás, um ex-ministro do partido social democrata dizia na televisão: “A Alemanha devia ser uma espécie de “Mãe” que olhasse pelos países da Europa do Sul”.
Mas que pensamento este, que surrealismo este, que realidade esta?!
Salazar, no seu tempo, afirmava por vezes o contrário: “É preciso juízo para governar; é preciso trabalhar e poupar, porque ninguém, absolutamente ninguém, nos dá de comer”.
Mas aquele ex-governante desejava a “maternidade” alemã!
Não foi capaz de denunciar que a partir de, pelo menos 1985, o país desbaratou fundos europeus em obras faraónicas e inúteis, como pavilhões desportivos, centro cultural de Belém, a hipoteca do Estado no negócio da Ponte Vasco da Gama, os dez estádios de futebol – quando o Brasil com 190 milhões de habitantes construirá quinze – os milhões gastos no Parque das Nações, a compra dos submarinos e toda a corrupção neles envolvidas, as algumas autoestradas desnecessárias, os grandes negócios do Estado entregues ao grande capital, os grandes privilégios à EDP que têm servido para extorquir o povo, os prejuízos nacionalizados e assumidos da Banca, a desgraça de termos um Passos Coelho que nada mais tem feito que abrir tumbas para enterrar reformados e, enxotar para o estrangeiro o trabalho jovem e a fome que os acompanha.
“Maternidade Alemã” queria aquele líder político! Esqueceu o descalabro em que nos meteram e esqueceu a Lei nº 34/87, que pune os perdulários e os predadores, mas que ninguém é averiguado, julgado e muito menos punido neste Portugal que é “descendente dos que ficaram”. Porque os que atualmente vão, são aqueles que inclinando o queixo até aos joelhos, se dirigem às possíveis Mães de chapéu na mão, sem ponta de dignidade, de verticalidade ou de sentido de Estado.
Sendo assim, e porque o momento que passa é dramático, perigoso, impensável de continuar, os portugueses têm de refletir, consciencializarem-se que não é com Seguros sem quotas, com Portas manhosas, com Coelhos trôpegos ou ideais Cubanizantes, que se sai deste atulhado.
O país precisa com toda a verdade e com toda a urgência de dirigentes d’aço, inteligentes, a praticarem uma democracia justa e musculada, nunca subservientes, tal qual a Alemanha os teve quando em 1953 negociou um acordo em Londres duma dívida que tinha de 42 biliões de marcos com todos os países da Europa e que só terminou o pagamento em 1996.
Vários países lhe perdoaram a dívida, outros, metade e, o acordo – 40 anos para pagarem – tinha de ser de harmonia com a produção realizada e com a garantia de vida digna dos seus cidadãos.
Os alemães sempre foram um povo trabalhador, inteligente e disciplinado, embora sejam também frios e calculistas. Frios, porque procuram lucros em qualquer esquina, mesmo que seja com a fome dos outros; inteligentes, porque fazem negócios subreptícios, devidamente pensados, oportunos. Isto é, vendem sem que os outros necessitem comprar. Disciplinados, porque tudo e todos têm de viver e conviver seja em que local ou situação se encontrarem, o mais perfeito possível.
Recorde-se que no início desta República, Otelo Saraiva de Carvalho encontrou-se com Olaf Palm da Suécia e este perguntou-lhe: “Diga-me senhor general: porque fizeram a revolução dos cravos em Portugal? Otelo respondeu: foi para acabar com os ricos”. Que Olaf Palm lhe respondeu: “a nossa revolução na Suécia tem sido a de acabar com os pobres. Isto é, que os ricos sejam menos ricos para que os pobres sejam menos pobres”.
Descendentes dos de outrora ou dos que cá ficaram, necessita-se de políticos que defendam a Lei, isto é, a Constituição da República, a liberdade consciente, a justiça social, a paz entre todos e não a devassidão e a rapacidade que todos os governantes dos últimos 25 anos têm imposto e se tem ruminado.




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