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Com papas e bolos…

Numa 3.ª feira de Setembro, “fui seduzida” para ir assistir a um debate “A Propósito da edição do Livro – “Ser Espiritual – da evidência à ciência”. Confesso que não me fiz rogada, para além de adorar livros, o Painel de Oradores era deveras apelativo: o autor do livro, Médico, uma Psicóloga, um Professor Universitário de Psiquiatria, um Professor Universitário e Investigador de Física e ainda um Sacerdote, o qual, por deveres imperiosos não compareceu.

Maria Susana Mexia
10 Out 2013

Cheia de expectativa começo por ouvir o autor da obra que, recorrendo a uma terminologia tão soft quanto light, tão ampla quanto estranha para a minha formação clássica, não consegui perceber em que terrenos se movia. Confesso que o meu horizonte é deveras limitado, está confinado à Ciência que se tem feito ao longo dos séculos na Europa, fortalecido por uma filosofia clássica grega e alicerçado numa fé inabalável, oriunda de Jerusalém, portanto razão e fé são as minhas ferramentas de trabalho.
O meu incómodo acentuou-se ao ouvir a Psicóloga presente, a qual falava da “aura” para aqui, da “aura” para ali e eu já perdida, porque de auras a única que conheço é a Aura Miguel e nunca pensei medi-la, penso até que será tarefa impossível, pois a sua medida é exceder-se sempre e cada vez mais…?
Ainda não refeita, componho-me para ouvir o Professor de Psiquiatria, que com a sua boa disposição, pelo menos aparente e o seu bom humor, começa a falar de casos de hipnose, de reincarnação das almas e, por aí fora, nesta linha que eu julgava ser pseudocientífica.
Finalmente, o Professor de Física alude à ciência, menciona Galileu, Newton, Einstein e Carl Sagan, num contexto que não cheguei a compreender,
aliás pareceu-me ter um discurso bem descontextuado dos parceiros, embora fosse o mais claro, o mais óbvio e o mais coerente.
Aqui, o meu centro de gravidade já tinha mudado de lugar, a minha bússola magnética parecia um pião, louca sem norte, sem ocidente, num turbilhão assustador…?
Seguiu-se o habitual debate nestas circunstâncias, tudo muito em uníssono, tudo provocando a confirmação da tese do autor, que sorrindo de forma muito serena ia reforçando a necessidade imperiosa e urgente de se fazer investigação científica nestas áreas, tão abandonadas e por explorar.
Eis quando uma voz feminina da plateia se atreve a pôr uma questão, a meu ver, muito pertinente: “Todos sabemos que a ciência é cara, muito cara, investigações, experiências, testes e conclusões implicam tempo e dinheiro, requer investidores na área que abram os bolsos, não por altruís-
mo nem generosidade, mas porque almejam um grande lucro na comercialização dos resultados. Quem paga manda, exige e impõe, acreditar no contrário é ser lírico e utópico”.
Foi nitidamente visível o mau-estar que esta questão provocou à mesa, meia respondida e de cernelha, o debate foi dado como findo dado o adiantado da hora…?
Saí com a certeza de que algo me estava a fugir ao controlo. Livro comprado foi colocado em fila de espera, mas chegou a sua vez. Lido e relido, analisada a bibliografia quase colapsei…
Não gosto de me sentir apunhalada, um ingénuo e bem-intencionado convite deixou-me em desespero existencial. Não guardo traumas, gosto muito do meu ID para o sobrecarregar com recalcamentos, nem tenho tempo nem feitio para ficar a remoer nas incoerências que a vida nos vai oferecendo. Além disso corria o grave perigo de um dia ter de recorrer a um psicólogo ou psiquiatra que me podia hipnotizar, pôr a falar com os meus antepassados ou ainda descobrir que, noutras épocas, eu tinha sido Nefertiti, Rainha de Sabá, ou sei lá que mais…
Caro leitor, tudo isto não teria passado de um pesadelo numa noite de Outono, não fosse o caso de ter acontecido no anfiteatro da Ordem dos Médicos, em Lisboa. Sinto-me na necessidade de o esclarecer, não vá ficar a pensar que eu frequento ambientes estranhos, esquisitos ou pouco ortodoxos…?




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