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A aurora rompe através das nuvens

Com medo de escorregar, de me desequilibrar e cair, antes de entrar em algumas estimulantes considerações, acerca da nossa verdadeira e autêntica natureza, vou segurar-me bem ao resultado das investigações, saídas destas duas imortais colunas: Parménides e Heraclito. Parménides descobre a estabilidade do ser na permanência das mudanças que se passam no ser, facto que o incentiva a cognominar o ser de imutável, simples, eterno, uno e universal.

Benjamim Araújo
9 Out 2013

Já Heraclito, à semelhança da alterosa onda do mar, que só permanece onda enquanto as mudanças, os movimentos e as instabilidades permanecem, descobre que a permanência das mudanças no ser é algo de real. Este algo real é o nosso ser existencial que, como tal, não pode viver fora do tempo e das mudanças.
No estado de adulto e de maturidade, de equilíbrio e sanidade em que estamos, descobrimos pela intuição o ser autêntico e vamos desenhar, assim, o seu majestoso perfil. Toda a sua constituição transcendental enverga o tecido feito de espiritualidade materializada. Traz na cabeça a coroa do uno, que faz tremer todas as forças biopsíquicas, sociais e culturais, aderentes a todo o indivíduo. Traz na lapela o símbolo da sua identidade: as ativas potencialidades de vida, amor, bondade, paz, sabedoria, perdão…? Nesta identidade reverbera-se a sua semelhança com Deus, tal é o seu fulgor.
Este ser, autónomo, livre e responsável, é uma obra maravilhosa, saída do poder, da sabedoria e do amor de Deus. O seu fulgor, intuído e meditado por Feuerbach, levou-o a identificar Deus com este ser do homem. Nietzsche, tal era o respeito que tinha para com a autonomia, a liberdade e a responsabilidade do ser humano, afirma que, sobre elas, nem Deus tem de intervir ou superar. Daí, perante isto, a sua afirmação de que Deus está morto.
Como a Teologia tem de partir da autenticidade do ser humano para Deus, pode-lhes estar reconhecida.
Neste ser humano, envolvido nesta constituição e identidade, fervem, em cachão, os intransigentes imperativos, que ordenam, à vida existencial, a sua integração, conexão e sintonia com a identidade do ser autêntico.
É na superação que o ser se manifesta neste nosso viver, condicionado pelos tempos e circunstâncias.
O corpo e a alma, unidos, têm a sua fonte no ser autêntico, no qual, por serem manifestações, se devem integrar, conectar e sintonizar. Do mesmo modo, as ciências biológicas e psíquicas (mente, entendimento) têm de se sintonizar com a vida e a sabedoria, imanentes à energia vital do ser, das quais são suas manifestações.
Todas as forças dinâmicas, tais como o positivismo, empirismo, racionalismo, idealismo, materialismo, espiritualismo e até as teo-logias e religiões enforcaram o ser autêntico no corpo e na alma e cortaram relações com ele. Essas forças ainda hoje se gladiam, ferozmente, entre si. Deixaram o passado sujo e com as crostas das rejeições, rigidez, autoritarismos, extremismos…, que, inconscientemente, se amontoaram em filões de dor e de sofrimento para todos nós.
Nenhum filósofo, a começar por Parménides, passando por Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Tomás de Aquino, Descartes, Kant, Hegel, até aos nossos dias, se apercebeu, no campo antropológico, da carência insustentável deste ser autêntico, como necessário ao caminho para a plenitude da nossa vida existencial.
Gostaria de ver, com alegres olhos, a efetivação de uma revolução, neste campo, em ordem à integração do ser autêntico, em toda a sua riqueza, nas estruturas da emoção, do pensamento e da ação de todo o indivíduo, seja cristão, muçulmano, budista, hindu…?ou mesmo sem crença e religião.




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