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Olhar para os professores

O dia 5 de Outubro, que, em Portugal, serve – este ano, pela primeira vez, sem feriado nacional – para assinalar a implantação da República, oferece, simultaneamente, em todo o mundo, uma oportunidade para olhar para os professores. Ontem, foi o seu dia mundial, por iniciativa da UNESCO. Desde há dezanove anos, o organismo das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura quer que, durante um dia, as atenções públicas se concentrem nos professores e na relevância de promover a condição docente para estimular uma educação de qualidade.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
6 Out 2013

O Dia Mundial dos Professores é celebrado através de múltiplas iniciativas. Umas são individuais e privadas, como as que se resumem ao envio, através de e-mail, de cartões, disponibilizados em várias línguas no site da UNESCO, a professores, aos quais, assim, se oferece um testemunho de homenagem e de gratidão pelo trabalho que desenvolvem ou desenvolveram. Outras são colectivas e públicas, como é o caso de sessões diversas, realizadas em vários pontos do globo.

Qualquer professor sabe bem que há problemas que degradam a condição docente, os quais, mesmo com toda a boa vontade, não são susceptíveis de resolução da manhã para a tarde. Mas bem sabido é também que abundantes problemas escolares se poderiam evitar havendo tão só algum bom senso e um módico de respeito, por ser demasiado pedir um pouco de empatia.

O respeito e a empatia, não sendo suficientes, poderiam ajudar a diminuir o esgotamento físico e mental dos professores, que tem vindo a ser detectado em inúmeras investigações. No ano passado, por esta altura do ano, era divulgado um estudo realizado por um psicólogo clínico, Alexandre Ramos, que concluiu que os professores portugueses têm um nível de stress superior ao da população norte-americana, considerada uma das mais stressadas do planeta. O estudo permitiu ainda compreender que, mesmo que a maioria dos professores tenha níveis médios e baixos de esgotamento físico e mental, nem um só dos inquiridos referiu não sentir qualquer tipo de exaustão, o que, segundo disse o psicólogo, é inquietante. “Se queremos preservar a qualidade de ensino nas escolas, é indispensável preocuparmo-nos seriamente e imediatamente com a saúde dos professores”, alertou o psicólogo, citado pelo Público (“Professores portugueses com mais stress do que população norte-americana”, 1 de Outubro de 2012).

Entre as causas de esgotamento físico e mental dos professores – que se traduz em dores musculares, de coluna e de cabeça; perda de energia; cansaço; irritabilidade; esquecimentos – encontram-se, segundo a lista de Alexandre Ramos, “a indisciplina dos alunos, as más relações com os colegas de trabalho e com a direcção, a carga objectiva de trabalho e a burocracia”. Não são as únicas, evidentemente. A falta de reconhecimento social da profissão ou o ataque à escola pública são outras.

Em “Feu sur l´école”, título do número de Outubro e Novembro da revista Le Monde Diplomatique. Manière de Voir, Christian Laval e Louis Weber referem quão estranho soa o vocabulário que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) usa para falar de educação. Palavras como “autonomia”, “projectos”, “objectivos” ou “competências” foram subtraídas a pedagogos do início do século XX que se opuseram à transformação capitalista da escola para justificar, agora, a liberalização dos sistemas educativos e para edificar a “nova escola” que a obsessão do privado melhor parece caracterizar.

Acelerando o ritmo desta metamorfose, as políticas de austeridade podem favorecer um projecto com que tantos sonham: “privatização, mercantilização e conversão da escola num ‘anexo’ de recrutamento das empresas”. Quando este sistema de recrutamento estiver edificado, os alunos e os pais serão instados a responder em conformidade, por vezes, à custa de um pesado endividamento, escolhendo os estabelecimentos de ensino que ofereçam os diplomas escolares que mais facilmente se convertam em mais dinheiro no mercado de trabalho.

O problema, apontam os autores, é que, assim, “privado de dinheiro para cumprir a sua missão, o serviço público de educação degrada-se, deslegitima-se, ao mesmo tempo que cresce o sofrimento dos professores e prosperam os empreendedores escolares”. Perante uma tal ofensiva, os apelos para que a escola fique a salvo da selvajaria neoliberal assemelham-se a votos piedosos: “Como é que a escola pode apresentar-se como uma ilha de cooperação no meio de um oceano de competição?”




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