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Cambridge e o projeto do ensino de inglês nas escolas públicas: um processo obscuro

Há dias foi o telespectador atento, surpreendido com mais uma “reforma” deste inimitável governo do país. A notícia, transmitida em primeiro lugar pelo Ministro da Educação e Ciência, em entrevista à SIC, e repetida em outros noticiários, informava que ia passar a ser ministrado nas escolas públicas o ensino de inglês da Universidade de Cambridge, dando-se a entender, desde logo, que se tratava de um curso da dita universidade. Na verdade, a UC não tem a ver com os diplomas concedidos pela Cambridge English Language Assessment, o nome comercial da UCLES – University of Cambridge Local Examinations Syndicate – fundada no sec. XIX e definida como “non-teaching” e não interveniente na actividade pedagógica da Universidade, para além de se afirmar como sem fins lucrativos. Tratava-se, e trata-se, de uma empresa que prestou serviços à UC.

Vergílio Fernando Marques Rodrigues
6 Out 2013

Quando essa actividade cessou, UCLES iniciou-se na elaboração de exames de inglês, emitindo o seu primeiro diploma, o Certificate of Proficency in English (CPE) e mais tarde o First Certificate in English (FCE). Trabalhando em colaboração com The British Council, o departamento cultural da Embaixada Britânica, rapidamente se estabeleceu por todo o mundo.
A importância destes dois diplomas no nosso país, resultava de constarem das habilitações suficientes para o ensino de inglês no então Ciclo Preparatório, conjuntamente com a disciplina de Português do 7.º ano, do antigo modelo, o que abria um importante acesso a um posto de trabalho. O CPE foi, no modelo daquele tempo, um diploma de muita qualidade e exigência. (O FCE tinha sido eliminado da lista). Consegui-lo obrigava a muito trabalho e estudo. As escolas de línguas afadigavam-se na preparação dos seus alunos, mas nem sempre os resultados eram satisfatórios. E não havia qualquer hipótese de revisão do exame. UCLES não o admitia. Entretanto novo diploma era lançado no mercado: o CAE, Certificate of Advanced English, que surgiu como uma alternativa ao CPE. Nesta altura, já se podia falar em mercado. Para estes exames UCLES não publicava qualquer programa. As escolas de línguas orientavam-se pelos livros produzidos pelas Editoras.
No fim da década de oitenta, novos diplomas de outras organizações, surgiram. UCLES criou então um nome comercial Cambridge ESOLexaminations(English for
Speakers of Other Languages), eliminando, pela primeira vez, a referência à Universidade, que continuou, porém, a constar nos diplomas, percebe-se porquê. Viria, recentemente, a alterar de novo a designação comercial para “Cambridge English Language Assessment”, (CELA),com logótipo próprio. Trata-
-se já de uma mais agressiva disputa pelo mercado do inglês! Para tornar mais prática e rápida a correcção dos exames, passaram estes a ser avaliados através de sistema informático ao mesmo tempo que os modelos eram simplificados, adaptando-se ao novo processo de correcção, prejudicando-se, desde logo, a qualidade da avaliação e o grau de exigência, o que resultou numa não surpreendente melhoria dos resultados finais.
A introdução do ensino do inglês no primeiro ciclo, veio acrescentar mais alguma perturbação no mercado dos diplomas. No primeiro despacho que definia o perfil do professor de inglês, eram apenas mencionados os de Cambridge, sinal da sua posição no mercado. Porém os tempos já tinham outros sinais e, perante as reclamações de outras organizações, novo despacho foi publicado incluindo mais diplomas. E outros despachos vieram a lume, à medida que o “negócio” parecia bom. Nesta data o último despacho já menciona 20 diplomas! O Governo, na ânsia de poupar alguns cêntimos, “descobre” o negócio e aparece agora associado a empresas ligadas à tecnologia das comunicações, a um Banco e a uma editora o que significa que vai entregar o ensino do inglês a privados. Esta empresa chamar-se-á “KEY for Schools, Portugal”, que se propões conceder aos alunos um diploma inútil, pois que de baixo nível de conhecimentos. O Ministro afirmou que os alunos pagariam pelo exame final uma pequena quantia e que as despesas eram suportadas pelos “investidores” e é só o que se sabe deste projecto.
Todo este processo é muito lamentável. Em primeiro lugar, porque é como lançar sobre o ensino público mais um injustificado e insultuoso atestado de incompetência. O ensino da língua inglesa, até à chegada destes últimos governos, tinha prestígio e qualidade. Não se compreende, pois, que venha agora uma empresa desconhecida do grande público, ocupar o lugar que, por direito, nos pertence. Além do mais, o exame (ou teste diagnóstico?) é anunciado com contornos dúbios: é obrigatório mas não tem de contar para a avaliação final, a não ser que a escola o queira! Acrescenta-se ainda “que é necessário impor a criação de mecanismos que permitam aferir os resultados da aprendizagem de modo sustentável e comparável”. O que significa que o Ministério da Educação e Ciência nunca promoveu tais métodos. Por esquecimento? Por ignorância? Por incompetência? De desconhecimento do que se passa no terreno, tem dado este governo sobejas provas, mas essa é outra história, que a História julgará um dia.
Urge, pois, chamar a atenção de todos os interessados na educação dos seus filhos e educandos para este caso obscuro e, por isso, perigoso.




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