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Um olhar em redor

Numa curiosa e pouco conhecida carta do inimitável Eça dirigida ao director da Companhia de Águas de Lisboa que, sem motivo para tal lhe mandara cortar o fornecimento do precioso líquido, o escritor, entre vários outros argumentos, referia-lhe: “Eu obriguei-me para com V. Ex.ª a pagar a despesa de uma encanação, o aluguer de um contador, e o preço da água que consumisse. V. Ex.ª pela sua parte, obrigou-se para comigo a fornecer-me a água do meu consumo. V. Ex.ª fornecia e eu pagava. Faltámos evidentemente à fé deste contrato: eu, se não pagar, V. Ex.ª se não fornecer”.

Joaquim Serafim Rodrigues
5 Out 2013

“Ora, face ao sucedido, eu preciso de cortar alguma coisa a V. Ex.ª. Oh! e hei-de cortar-lha!… Não peço indemnizações, eu chego a nem sequer pedir água. Quero apenas esta pequena desafronta… quero cortar uma coisa a V. Ex.ª! Rogo-lhe, Exm.º Senhor, a especial fineza de me dizer, perentoriamente, sem evasivas, qual é a coisa que, no mais santo uso do meu pleno direito eu possa cortar a V. Ex.ª.”
“De V. Ex.ª, com muita consideração e com umas tesouras,
a) Eça de Queiroz”
A carta é muito mais extensa, mas claro que dela extraí apenas as partes mais interessantes.
Mutatis Mutandis (mudando o que deve ser mudado…) ocorre-me, ao reler esta carta, aquilo que o Governo se propõe efectuar e acabará talvez por levar por diante, mais cedo ou mais tarde: um novo corte, desta vez nas pensões dos funcionários públicos! Tal medida, a concretizar-se, constituirá um desaforo, além de uma indignidade, até porque ao que consta, esse corte nas pensões (fala-se em 10%) nem sequer será proporcional relativamente àquilo que cada aposentado aufere. Conforme dizia há pouco um dos analistas políticos do PSD, note-se (Marques Mendes), o Governo mostra-se forte com os fracos e fraco com os fortes.
Todavia, a questão coloca-se nestes termos: os pensionistas da função pública descontaram, ou não, aquilo a que se obrigaram durante as suas carreiras, ao longo de anos e anos, tendo como fiel garante do seu futuro, da sua estabilidade, o próprio Estado tido como pessoa de bem? Os respectivos Governos, democraticamente eleitos, obrigam-se, ou não, a respeitar esses contratos visto que, de um verdadeiro contrato se trata assumido por ambas as partes – o funcionário, de um lado, e o Estado que ele serviu durante mais ou menos tempo do outro?
Somente uma pergunta: se o Governo actual desrespeitar este princípio sagrado sem justa causa, o primeiro-ministro será o responsável, porque o representa, ou não? Cairá, portanto, naquela situação do director da Companhia das Águas a que alude Eça de Queiroz na sua famosa carta. Devia, pois, esclarecer os pensionistas acerca daquilo que acha que lhe deve ser cortado (refiro-me ao seu vencimento, creiam, não estou pensando em nenhumas tesouras). E excluo naturalmente a ministra das Finanças, claro. É que os exemplos devem partir sempre de cima, não é verdade, caro leitor?




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