Fotografia:
Segundo ou quarto resgate financeiro?

A economia portuguesa, entre os anos de 1995 e 2011, cresceu em média 0,3% ao ano. Em termos económicos, este crescimento é considerado tecnicamente negativo, tendo em conta fatores de convergência com os restantes membros da EU. Significa isto que Portugal em vez de convergir, neste espaço de tempo, esteve a divergir ou seja, esteve a distanciar-se ainda mais dos principais países desenvolvidos da EU, à qual pertencemos.

Abel de Freitas Amorim
4 Out 2013

 Segundo afirmações públicas do então Ministro das Finanças, em Março de 2011, os Cofres do Estado estavam vazios, no mês seguinte, ou poucos dias mais, o Estado já não poderia pagar aos seus funcionários e satisfazer os seus compromissos. Ora, o que isto significa é que Portugal e todo o sistema bancário português, que deixou de ter acesso a crédito externo, estavam em completa rutura financeira. Ao manter-se essa situação, Portugal deparava-se já com a total falta de confiança económica e não poderia pagar aos seus credores. Os hospitais deixariam de funcionar, os aposentados e reformados em geral não recebiam o que lhes é devido e as forças da ordem pública ficavam nos quarteis por falta de meios. A fome generalizava-se, a paz e a liberdade ficavam em perigo. É verdade que mesmo falidos e com fome poderíamos ser um país soberano, poderíamos abandonar a EU, poderíamos até voltar a ser um país pobre e orgulhosamente sós. Porém, está por provar que, no mundo atual, essa fosse a melhor opção.
A ciência económica, principalmente a macroeconomia, não é uma
ciência exata. O pensamento e o agir humano antecedem sempre a ciência “dos homens”, qualquer que ela seja. Entre nós, a esquerda falaciosa tenta convencer-nos de que o passado não interessa. Os problemas e as dificuldades do país são recentes, são fruto das políticas do presente e, como tal, deveriam ser resolvidas positivamente hoje. Reconhecem, no entanto, que andam por aí uns representantes dos nossos credores, com quem eles sempre reúnem e apresentam as suas propostas. Mas, pelo que se sabe, sempre afetadas pela contínua irresponsabilidade. Sábios da ciência económica, com manuais de teo-
rias já experienciadas no passado, argumentam que o que falta é promover o investimento, mesmo que “comprado”, com benefícios fiscais e outros incentivos a peso de ouro, é dinamizar mais o mercado interno, é promover o consumismo, mesmo sem uma base sustentável de riqueza. Para muitos destes sábios Portugal deve desvincular-se dos seus compromissos internacionais, deve promover agora a sociedade de consumo, deve endividar-se externamente mais para financiar esse consumo. Deve, também, criar condições para que os bancos, pedindo dinheiro no estrangeiro, promovam o crédito fácil para, por exemplo, férias em ilhas paradisíacas e para consumos de necessidades duvidosas. Estes sábios, em contradição permanentes, pretendem que os sacrifícios nos sejam aliviados mas, por outro lado, pretendem que o deficit público seja alargado, mesmo à custa de mais dívida do país. Significa isto que, não havendo almoços grátis, os sacrifícios, em vez de serem aliviados, vão se perpetuando no tempo, cada vez mais pesados.
Penso que não necessitamos destes sábios para resolver o futuro. Pois, não é difícil prever o futuro, tal é a demagogia reinante. Sabe-
-se quem, o mais tardar em 2015, vai ter a responsabilidade de governar de novo o país. Voltar-se-á a distribuir dinheiro fácil e a iludirem-se os portugueses.
Assim, os sacrifícios, suportados por todos nós, vão ser atirados borda fora. Surgirão, então, os mesmos de sempre a pedirem não o segundo mas o quarto resgate financeiro. São especialistas em pedirem resgates que depois não cumprem nem querem que os outros cumpram, no essencial, aquilo que eles próprios assinaram. São estes os mesmos que consideram a Constituição imutável, que esta não se deve adaptar à realidade do país, mas sim aos seus interesses ideológicos. Percebe-se, agora, porque não querem inscrever na Constituição qualquer limitação ao deficit público.
Acredito que, na era da informação, os portugueses, independente da sua formação, se vão aperfeiçoando nos seus conceitos de cidadania de modo que, em democracia, se possam pedir mais responsabilidades.
Em caso contrário, se não for alterado o que a história recente nos revela, se não forem alterados os indícios, Portugal será então o único país do mundo que, em pouco mais de quatro décadas, se obriga a ajoelhar o seu povo com o quarto pedido de resgate e sem que ninguém seja responsabilizado.

Nota da Direção: Este artigo foi publicado no dia 30 de Setembro, mas de forma incompleta. Porque se tratou de um lapso de que o DM é o único responsável, procedemos hoje a uma nova publicação. Ao autor do artigo, apresentamos as nossas desculpas.




Notícias relacionadas


Scroll Up