Fotografia:
Lázaros de hoje

Quem, domingo, participou na Eucaristia foi convidado a refletir sobre a parábola do rico e do pobre Lázaro (Lucas 16, 19-31). Foi convidado a pensar na forma como usa o dinheiro: se de uma forma egoísta ou solidária. Foi convidado a pensar no escândalo que são gastos feitos com o luxo, com a ostentação, com manifestações de novorriquismo. Foi convidado a pensar em tanta insensibilidade face aos problemas e às necessidades dos outros. Foi convidado a pensar nas diversas formas de pobreza e a tomar consciência de que o número de pobres não se reduz aos que carecem de bens materiais.

Silva Araújo
3 Out 2013

Pensei nos Lázaros de hoje. Lázaros de cuja existência nem sempre nos apercebemos. É desses Lázaros que hoje me proponho falar.
Podem ser Lázaros de hoje os que vêm para a rua pedir esmola, embora seja necessário distinguir a verdadeira da falsa mendicidade; os verdadeiros dos falsos Lázaros.
Podem ser Lázaros de hoje os que, tendo vergonha de revelarem a situação de pobreza em que se encontram, sofrem em silêncio grandes privações.
Podem ser Lázaros de hoje os que passam horas nas urgências dos hospitais, os que aguardam meses por uma consulta nos centros de saúde, os que esperam meses por uma intervenção cirúrgica, os que ainda não têm médico de família.
Podem ser Lázaros de hoje os estudantes mais fragilizados, vítimas da prepotência de colegas mais atrevidos, ou os que sofrem desmandos nas chamadas praxes académicas que, em vez de serem um modo de acolher fraternalmente os mais novos, se convertem numa forma de  tortura.
Podem ser Lázaros de hoje os que, embrulhados em jornais, dormem nos vãos das escadas ou debaixo das arcadas.
Podem ser Lázaros de hoje os pais de filhos toxicodependentes que, depois de lhes terem despejado a casa, ainda se sentem massacrados com as suas nunca satisfeitas exigências.
Podem ser Lázaros de hoje os que se sentem mais usados do que respeitados e amados.
Podem ser Lázaros de hoje os que, desejosos de trabalhar, se veem condenados ao desemprego.
Podem ser Lázaros de hoje os que se sentem ultrapassados ou se deparam com as portas fechadas, só porque não têm padrinhos à altura.
Podem ser Lázaros de hoje os idosos que a família, por comodismo, arruma nos lares, quando tem condições para lhes proporcionar em casa uma velhice sossegada.
Podem ser Lázaros de hoje os pais que passam parte das noites em claro, sempre à espera que os filhos notívagos entrem em casa.
Podem ser Lázaros de hoje os filhos cujos pais não têm tempo para conversar com eles, para se inteirarem das suas preocupações, para os orientarem no cumprimento dos deveres escolares.
Podem ser Lázaros de hoje as vítimas de violência e de maus-tratos, em casa ou fora dela.
Podem ser Lázaros de hoje os adolescentes que, na Escola, são ridicularizados por dizerem que frequentam a catequese e participam na Eucaristia dominical.
Podem ser Lázaros de hoje os que vivem rodeados de conforto mas não têm a companhia dos que lhes são mais queridos. Aqueles a quem dão coisas, muitas coisas, mas não têm quem os oiça ou lhes dê uma palavra de estímulo e de carinho. Os que têm por única companhia a televisão, o cão e o gato.
Podem ser Lázaros de hoje as vítimas do poder do mais forte, que não têm quem as ajude a reivindicarem ou a defenderem os seus legítimos direitos e se veem privadas de vez e de voz.
Podem ser Lázaros de hoje aqueles para quem, por comodismo, não temos tempo nem disposição. Aqueles a quem falamos de qualquer maneira. Aqueles que esperam, em vão, a nossa visita. Aqueles a quem não apertamos os cordões dos sapatos. Aqueles que precisam de desabafar mas não têm quem os ouça com a paciência desejada. Aqueles a quem, só por comodismo, desligamos o telefone ou mandamos dizer que não estamos.
Há Lázaros porque nos esquecemos de que a fome de pão é uma, mas não a única das fomes que atormentam as pessoas.
Há Lázaros que o são unicamente porque nos recusamos a renunciar ao nosso egoísmo, aos nossos caprichos, aos nossos dispensáveis interesses pessoais.




Notícias relacionadas


Scroll Up