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E se fosses mas é trabalhar?

Todos nós, que gostamos de desporto, somos massacrados com futebol. Na maior parte dos casos, nem se trata de futebol jogado, mas de vários outros tipos que, pelos vistos, são ainda mais praticados: é o futebol falado, o futebol berrado, o futebol do insulto, do palavrão, da ofensa, da desconfiança, do sacode-a-água-do-capote que é o preferido dos dirigentes e, a pérola das pérolas, o segredo do sucesso mediático, o futebol debatido televisivamente por desempregados ilustres, gente que acha que sabe falar, ex-dirigentes frustrados, jornalistas gravemente atingidos pela epidemia da clubite aguda, antigos jogadores que se esqueceram de terminar a escola primária mas a quem alguém disse que são cultos.

Manuel Cardoso
3 Out 2013

Todos estes exemplares são subespécies dessa espécie peculiar da selva portuguesa, esse animal portentoso, inofensivo e incapaz mas brilhante como um pavão, que é o famoso animal-que-gosta-de-aparecer.
Este espécime não sabe nada de futebol mas fala como gente grande; por vezes é feio e malcheiroso mas veste-se de penas de pavão. Às vezes não sabe ler nem escrever mas dá ares de doutor ou, pelo menos, convence os outros a chamarem-lhe doutor. Na rua, já estão habituados a ouvir o velho chavão “E se fosses mas é trabalhar?” No entanto, a sua espécie distingue-se também por aquela importante capacidade de apurar a audição apenas quando interessa (é particularmente sensível à palavra “euro”).
Uma outra característica essencial desta espécie é a perseverança; é uma qualidade notável. Mesmo quando todos dizem que algo é branco, ele insiste, persiste e teima que é preto. Mas a sua maior qualidade é algo que o comum dos mortais nunca há-de compreender; algo que só está ao alcance dos mais dotados desta espécie: é a capacidade para moldar a realidade que o rodeia aos seus próprios pensamentos e à sua realidade particular; estes exemplares sobredotados são especialistas em alterar o contexto dos acontecimentos, fazendo-os assumir as cores que melhor combinam com a sua plumagem; se as suas penas são vermelhas, ele consegue fazer com que o mar seja vermelho; se são verdes, pois até o céu se torna verde; e se são azuis, até as árvores passam a ser azuis.
Isto revela, além de tudo o mais, um espírito de sacrifício enorme, porque seria sempre mais fácil a adaptação da espécie em vez da alteração da realidade que a envolve. Alguns cientistas especializados no estudo desta espécie defendem uma teoria curiosa, segundo a qual estes comportamentos devem-se ao facto de estes exemplares não terem consciência daquilo que realmente são…
Tudo isto é absolutamente notável e a National Geografic ainda há de ganhar um Óscar se decidir fazer um documentário sobre esta espécie. No entanto, por mais admiráveis que estas criaturas sejam, eu não as suporto! Tanta perfeição causa-me náuseas.
E este meu desdém nada tem a ver com eventuais fraquezas ou defeitos das ditas criaturas; é um problema meu… sim, porque estes exemplares também têm os seus defeitos; ainda há dias um deles foi capaz de dar os parabéns ao Rui Costa do ciclismo e ao João Sousa pelos feitos notáveis do passado domingo! Esse exemplar gastou mais de 5 segundos nisto, até voltar ao seu assunto favorito, os penaltis do adversário!




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