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A voz do povo

Os candidatos às eleições autárquicas do passado domingo saíram à rua, durante algumas semanas, para fazerem valer, junto do eleitorado, os seus projetos políticos. Nesse contacto com o povo, ouviram diretamente dos lábios das pessoas os seus anseios, as suas necessidades, as suas angústias, os seus problemas, as suas reclamações, as suas “exigências” – e, por ventura, também os seus elogios.

Victor Blanco de Vasconcelos
3 Out 2013

É costume dizer-se que as eleições autárquicas têm a particularidade de proporcionarem o exercício de uma “política de proximidade”. Isto é: permitem aos eleitores um contacto mais direto com os seus representantes e possibilitam aos eleitos uma maior proximidade com as pessoas “concretas” (passe a redundância) e com os seus problemas, no sentido de uma mais rápida e eficaz solução para esses mesmos problemas.
Porém, o que a realidade tem mostrado de forma clara nas últimas décadas é que esta “proximidade” é mais teórica do que prática. E isto porque se nos perío-dos de campanha eleitoral os candidatos às autarquias fazem “arruadas” para dialogarem com o povo e para ouvirem as suas reivindicações – após as eleições costumam desligar-se desse importante “múnus”. Encerram-se nos seus gabinetes, raramente “descem ao povoado”, e o seu contacto direto com as populações faz-se, durante o exercício do poder, quase só em eventos de natureza propagandística, tais como “inaugurações” e outros acontecimentos afins…
É verdade que há autarcas que, cônscios desta realidade, procuram combatê-la criando um “espaço” nas suas agendas para escutarem as pessoas, disponibilizando-se para recebê-las nos seus gabinetes pelo menos uma vez por mês. Diga-se, todavia, em abono da verdade, que são muito poucos os autarcas eleitos que concretizam esta disponibilidade. Aliás, na maioria das vezes, para “disfarçarem” que ouvem o povo de forma continuada, criam as chamadas estruturas de “apoio” aos munícipes – mas nelas colocam funcionários sem quaisquer poderes de decisão sobre as matérias expostas pelos cidadãos, servindo apenas (essas estruturas e esses funcionários) como “correias de transmissão” que, quase sempre, dão resultados nulos.
Reconheça-se que há autarquias mais complexas – quer pela sua grande dimensão geográfica, quer pelos vastos e diversificados problemas que apresentam – que exigem muito “trabalho de gabinete”, muita “dedicação aos papéis”, muitas reuniões com técnicos e assessores.
Reconheça-se, ainda, ser legítimo pensar-se que, após as eleições, os autarcas têm um mandato para executarem os seus “projetos eleitorais”, não sendo condição sine qua non para a sua implementação a audição direta e continuada do povo  que os elegeu.
No entanto, se há tempo durante as “campanhas eleitorais” para se andar no meio do povo, a dialogar, a cumprimentar e a beijar à esquerda e à direita, torna-se incompreensível que se não encontrem “espaços de agenda” para se ouvir o povo durante o exercício dos mandatos – assim como é incompreensível que só muito raramente se vejam os autarcas nas ruas e nos espaços públicos a auscultar o que os cidadãos dizem e pensam, por mais (aparentemente) comezinhos que pareçam os problemas…
Não tenho quaisquer dúvidas de que o povo anseia por ser constantemente ouvido e que valoriza imenso essa “audição pública”. A democracia também passa por aí. Pelo que se espera que os autarcas eleitos no passado fim de semana não façam “ouvidos moucos” a esta situação!




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