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A satisfação das necessidades (I)

O homem tem direito a satisfazer as suas necessidades básicas, tais como a alimentação, os agasalhos, a habitação, a integração numa comunidade, o trabalho, o amor, o respeito pela vida e outras formas de expressão e de realização. Deve-se, no entanto, destrinçar necessidades de desejos. As necessidades humanas, quando comparadas com os desejos, são realmente muito poucas. Aquelas, uma vez concretizadas adequadamente, tornam o homem num ser feliz;

Artur Gonçalves Fernandes
3 Out 2013

os desejos desmedidos, descontrolados e desenfreados adicionam ao homem uma carga psíquica muito pesada, alicerçando, deste modo, a sua existência sobre uma areia movediça que, mais cedo ou mais tarde, o tragará implacavelmente. A avareza, a cobiça, a voracidade e a ganância de muitos homens, que querem enriquecer rapidamente e à custa da exploração dos outros, podem contribuir para o aumento e a acumulação dos seus bens patrimoniais, mas o seu bem-estar interior fica estéril e inconsistente. São escravos do dinheiro e uns eternos insatisfeitos em relação aos bens materiais e pouco atreitos a valores morais. “A maior parte dos luxos, e muitos dos chamados confortos da vida – escreveu Thoreau – são não só dispensáveis mas obstáculos reais à elevação da humanidade.” Certas pessoas consideram-se pobres só por não terem tudo o que desejam, vivendo constantemente numa ansiedade mórbida que transforma a sua existência num inferno trucidante. Muitos ricos são egoístas, desumanos e vampíricos, esquecendo que, ali mesmo a seu lado, há cada vez mais pobres e indigentes, que, tantas vezes, não chegariam a fazer uma única refeição diária, se não fossem as instituições sócio-caritativas ou de solidariedade social ou até a boa vontade de pessoas particulares que estão atentas às necessidades dos seus vizinhos. “Não é rico quem tem mais, mas quem precisa de menos”, ensinaram-nos os nossos avós. Há tantas pessoas que desejam exorbitantemente mais do que necessitam, vivendo continuamente numa ânsia e numa avidez doentias para concretizar as suas ambições. Através de anúncios nos Meios de Comunicação Social (onde entra toda a espécie de aliciamentos), da ambição desmedida, da competição desregrada, tais pessoas autoestabelecem listas utópicas de desejos que nem um super-homem conseguiria realizar; esfalfam-se com ideias, projetos e trabalhos, para alcançar os seus hiper-objetivos e, no fim da luta, quando se apercebem, verificam que se esmirraram por coisas meramente fúteis e efémeras. Quão enganados andaram e andam! Dizia uma minha vizinha, na sua sensata sabedoria acumulada: “Fui sempre rica porque nunca desejei nada de que não precisasse”. E acrescentava o que ouviu de outrem que, quando observava as montras repletas de luxos apelativos, comentava: “Tanta coisa de que não preciso!” Uma grande parte da confusão da nossa vida deriva do facto de não sabermos o pouco de que necessitamos. Para simplificar o nosso modo de viver, devemos começar por diminuir os nossos desejos desviantes que provêm, muitas vezes, de uma educação distorcida e de uma sociedade que propala desvalores ou antivalores, por serem antinaturais. A riqueza não deriva tanto de bens materiais, mas sobretudo de bens espirituais e de uma consciência tranquila. O custo de vida tornar-se-ia muito mais baixo se não tentássemos financiar todos os nossos impulsos. O homem deve saber limitar ou escolher os seus desejos de acordo com o seu orçamento verdadeiramente humano. Julgar nunca ter o suficiente é um pensamento louco e infrutífero. Devemos reservar alguma energia para apreciar a beleza, o amor e o hábito de bem-fazer. Não é sensato passar toda a vida a tentar amealhar riqueza e luxos. A satisfação e a alegria autênticas não são específicas dos que têm grandes meios materiais, mas de quem tem menos necessidades.




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