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A desajustada identidade da vontade em Schopenhauer

O mundo, enquanto conhecido por nós, não o podemos considerar como uma realidade, assim pensa Schopenhauer (1768), estribado no idea-lismo crítico de Kant e na metafísica do absoluto dos filósofos transcendentais. O mundo é a manifestação de uma essência, cujo conhecimento supera o entendimento e a razão. Essa essência é o absoluto, isto é, a realidade transcendente, na qual todas as coisas, como suas manifestações, fazem parte dela mesma. A especificidade da essência está em ser vontade.

Benjamim Araújo
2 Out 2013

A vontade é considerada, pelo filósofo, como o princípio metafísico da essência do absoluto e de todas as coisas dela derivadas. Entre as coisas derivadas do absoluto estão o mal, a dor e a desgraça, que tanto afligem o nosso mundo existencial.
Se a vontade, como princípio metafísico da essência do absoluto e das coisas dela derivadas, não tem acesso ao conhecimento do entendimento e da razão, há uma outra via que a ela nos conduz, afirma o filósofo. Essa via é a intuição. É por esta via, diz Schopenhauer, que nos conhecemos como vontade e conhecemos o nosso corpo, bem como todos os corpos, como manifestações da nossa vontade, que habita a profundidade de todas as coisas, de onde deve partir a libertação de todos os males. Esta processa-se através do prazer estético, da misericórdia e da negação da vontade. Esta negação, segundo o filósofo, processa-se através do ascetismo, isto é, através da morte de todo o prazer.
A minha atenção, presa ao rastilho fogoso da reflexão, explode assim, sem gaguejar e agasalhada pela consciência: a vontade, embora identificada com o princípio metafísico do absoluto, que é a coisa em si, ou, como afirma o filósofo, a realidade interna, não será antes a manifestação da coisa em si? E a coisa em si, que está para lá do tempo e do espaço, não rondará, beijando, a nossa una e autêntica natureza, que se manifesta na união do corpo (fenómeno) com a alma (númeno), superando-a?
Não será, então, uma ilusão tomar a vontade (manifestação) pela coisa em si, isto é, pela realidade interna, autêntica, imutável e transcendental?
A vontade vai ser, assim, cortada em postas, por alguns talhantes, com a afiada lâmina do facalhão da análise e as postas colocadas na vitrina, a fim de serem avaliadas e compradas pelos seus apreciadores críticos.
O talhante, denominado Platão, evidencia, nas postas retalhadas, a faceta intelectual. Já outro talhante, Aristóteles, se inclina mais para a faceta da racionalidade (talvez seja mais tenra). O talhante S. Agostinho, o que mais apreciava nas postas era o facto de estimularem o apetite das potencialidades. Já o talhante Tomás de Aquino só via nelas a sua cativante autonomia. Em Duns Escoto o que mais o atraía era a dinâmica. Os talhantes Occam e Descartes viam nelas as suas dinâmicas orientadoras. Kant e Fichte encantavam-se com as suas implicações em tudo, no que estou de acordo.
A vontade, esta é a minha posta predileta, não será a manifestação da livre e determinada integração e conexão da vida existencial, na unicidade, no amor, na bondade e no bem do nosso ser autêntico, recetivo e aberto ao ser transcendente?
A vontade não será uma potencialidade passiva, nas mãos da pessoa, que a controla e gere na prateleira dos contrários, para alcançar a sua plenitude na fonte do seu ser? Não será um querer, não querendo? Um estar acordado, dormindo?
A vontade, na sua dinâmica, não será, então, a manifestação da energia vital da coisa em si, isto é, da realidade transcendental, que é a sua fonte, à qual a vontade, como vontade, deve imperativamente regressar?
É na ignorância de Schopenhauer (e não só), acerca da constituição metafísica da nossa autêntica natureza, que está radicada a afirmação de que a vontade se identifica com a coisa em si, originando, penso eu, um formigueiro estimulador de errados raciocínios.




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