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Zona histórica votada ao ostracismo

Há muito que os habitantes e comerciantes da Rua D. Diogo de Sousa vêem esta zona votada ao desprezo e não aceitam nem compreendem a razão da sua depreciação. Ocorreu a Braga Romana que, este ano, até alargou o seu perímetro de actuação ao Largo das Carvalheiras e à zona das termas romanas do Alto da Cividade, e o que se verificou foi que, da igreja da Misericórdia rumo ao Arco, não se vislumbrou tenda ou viva alma que recriasse a Bracara de outras épocas.

Sofia Marques
1 Out 2013

Também, durante as festividades do São João, não houve banda de música, rancho folclórico, bombos ou gigantones que alegrassem aquele perímetro da cidade. Tempos existiram em que os cortejos do São João se iniciavam, precisamente, no Arco da Porta Nova, à semelhança de diversas outras celebrações, de cariz civil ou religioso, que tinham o seu princípio na porta da cidade. 
Nos dias de hoje, contudo, assiste-se só e apenas a um cenário de vazio, ausência de animação e vitalização do espaço, tendo este sido relegado para uma função de parque automóvel quando, em verdade, se trata de uma zona pedonal.
Assemelha-se-me que a edilidade e a população devem ter esquecido que D. Diogo de Sousa – Arcebispo de Braga entre 1505 e 1532 – foi o grande refundador da cidade, tendo entre inúmeros e proeminentes melhoramentos na urbe, mandado abrir a Rua Nova de Sousa – hoje D. Diogo de Sousa – assim como a Porta Nova, depois, monumentalizada e dignificada, entre 1772-1773, a pedido de D. Gaspar de Braga, visto que era por ela que os arcebispos faziam a sua entrada triunfal aquando da entronização no sólio bracarense e da recepção das chaves da cidade.
Atendendo, assim, à suma relevância do Arco da Porta Nova para a história da cidade, classificado em 1910 como monumento nacional, como se explica então que, nos últimos anos, tenha sido votado a um tamanho desprezo? Como se explica que os cortejos dos mais diversos eventos não tenham já o seu início naquele local emblemático e simbólico?
Do mesmo modo, e independentemente de o arco ostentar uma fachada (aquela que se encontra voltada para a Rua D. Diogo de Sousa) mais singela, detendo apenas num nicho a imagem de Nossa Senhora da Nazaré, e outra fachada (esta voltada para o Campo das Hortas) mais imperiosa, ostentando entre pesados obeliscos as armas de fé de D. Gaspar e no topo a alegoria barroca da cidade, como se explica que somente esta parte da fachada tenha direito a iluminação e visibilidade? Não são faces da mesma moeda? Não merecem ambos os lados o mesmo tratamento igualitário, indiscriminado?
Ainda neste domínio espacial, D. Diogo de Sousa mandou construir uma fonte «formada de um pátio, digo, de um pano de esquadria, com seus cunhais, friso, cornija e arquitrave, com três pirâmides em cima; lança a água por duas bicas metidas nas bocas de dois golfinhos, por cima de cada um dos quais estão umas armas, as do ilustríssimo senhor Dom Diogo de Sousa, arcebispo que foi desta santa igreja, para a parte da Rua Nova; e as do ilustríssimo senhor Dom Frei Agostinho de Jesus, também prelado que foi desta primacial, para a parte da Porta Nova.».
Porém, nos dias de hoje, visível aos olhares curiosos que calcorreiam a urbe, resta apenas o arco trilobado encimado pelas pedras de armas dos arcebispos. Daí que, com toda a razão, sufraguemos o entendimento do Doutor Eduardo Pires de Oliveira quando refere «pena foi que (…) não tivesse havido o cuidado de se ter procurado esta fonte, colocando-a a descoberto o que serviria, sem margem para dúvida alguma, não só como mais um ponto de animação mas, também, como um excelente motivo para realçar a grande beleza desta praça». 
Na mesma linha de pensamento, o autor prossegue: «esta praça também poderá e deverá servir como um local aprazível para as artes. O seu aconchego, a beleza e a singeleza da sua arquitectura, permitem-no. E a sua história também pois já aqui moraram alguns vultos importantes da história artística bracarense (…) Domingos Martins Peixoto (…) e sobretudo João Lopes da Maia e seu filho João Lopes.». À luz deste entendimento, por que não implantar, nesta zona da Praça Velha, ateliês de artesãos? O distrito de Braga é, por excelência, terra de artífices, rica em artesanato, património este que necessita de ser encorajado e promovido, de forma a ser conhecido e apreciado por um cada vez maior número de pessoas. Neste preciso momento, a Associação dos Artesãos do Minho encontra-se sediada num espaço sem qualquer tipo de evidência, além de que, quem visita a cidade não se irá deslocar a um espaço tão distante para conhecer o artesanato da região. Não será de repensar a localização dos expositores destes artífices? Por que não apostar na zona da Praça Velha para exibir a mestria e o engenho dos nossos artesãos?
Os habitantes e lojistas desta zona condenam esta política de ostracismo a que foi votada a Rua D. Diogo de Sousa, Praça Velha e Arco da Porta Nova. Exigem que as entidades responsáveis enquadrem esta zona nos festejos, eventos e actividades a desenvolver na cidade e, acima de tudo, exigem a revitalização do espaço.




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