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Saber queixar-se… à portuguesa

Faz quase parte da nossa psicologia de portugueses uma certa ‘arte’ de queixume. Nas ruas e nos espaços privados escutamos tantas vezes pessoas que desfiam as suas lamúrias… fazendo-o de forma sincera ou com a arte de cativar a atenção alheia, criando um certo ambiente dalguma negatividade, seja na componente social, seja na perspetiva familiar, tanto quando as coisas correm em registo escuro, como nas ocasiões em que se está (ou pode estar) mais aliviado… Culturalmente os portugueses vivem mais ao sabor da melancolia – veja-se a vivência estrutural do fado… como expressão cultural e musical – do que das energias positivas, que o sol lhe deveria comunicar…

A. Sílvio Couto
30 Set 2013

– Há, no entanto, uma atitude que nem sempre colhe no relacionamento com os outros: se alguém não se queixar não consegue atrair a atenção dos outros e poderá, mesmo que de forma inconsciente, funcionar como alguém que se pretenda colocar num patamar de superioridade que, em maré menos benéfica, reverterá contra essa espécie de sobranceria.

– Normalmente a atitude de vítima ou de vitimização – seja como ‘coitadinho’, seja nas garras dalguma pobreza explorada – conquista mais adeptos do que quem joga na equipa da sinceridade. Estes podem tentar disfarçar mas sobrevivem, enquanto aqueles flutuam mesmo que à custa de mentiras e de dislates… conjunturais ou estruturais.
– Se alguém ousar não dizer ou desfiar as suas ‘desgraças’ poderá ser (pretensamente) entendido como um tanto presunçoso, seja porque se considera acima dos outros, seja porque não se ‘irmana’ na miséria, pois esses têm uma posição que pode atrair a atenção e – tal como se diz nos adágios populares – ‘quem não chora não mama’!… Só nesta vivência poderemos entender que somos um povo propenso a viver mais no desgraçadismo do que na correta visão do que somos sem mazelas nem rótulos!

= Para uma visão cristã do cuidado… dos outros
Enquanto cristãos vemos os outros como irmãos na alegria e na tristeza, na saúde e na doen-ça, nos bons como nos maus momentos… descobrindo e expondo-nos uns aos outros – sempre numa correta visão do pudor e do respeito – tanto na presença em família como nos círculos de amizade, numa intercomunhão que sabe (e procura saber) mais o que nos edifica do que aquilo que nos pode escandalizar.
Nesta época do virtual há quem se esconda por trás de imagens de facebook, de considerações de ‘gosto’ (‘like’) ou ‘não gosto’… numa espécie de exibição da privacidade onde o buraco da fechadura foi substituí-do pelo clique do computador ou a manipulação do que se quer mostrar… às vezes sem tino nem senso!
– Ora, na componente mais básica de uma visão cristão de nós mesmos e dos outros precisamos de viver na verdade, sobretudo para com aqueles que connosco caminham, dando-nos a conhecer sem vitimizações nem disfarces. Se não permitimos ser amados – mesmo nas nossas fragilidades e fragilizações – como poderemos criar confiança para amar? Se não nos damos a conhecer na verdade como poderemos aceitar que nos amem sem medos nem preconceitos?
– Na recorrente do pensamento do Papa Francisco recordamos essa nota de cuidarmos dos outros e de nos deixarmos cuidar… pois só desta forma viveremos a partilha não dos aspetos negativos ou até negativizados, mas das marcas de simplicidade da nossa história e nas estórias dos outros que Deus coloca no nosso caminho… Com mais simplicidade de vida poderíamos ser mais felizes e criaríamos outros círculos de felicidade à nossa volta!
– Pelo que vamos conhecendo de nós mesmos – tanto das fragilidades como das boas prestações – e dos outros com quem vivemos, torna-se urgente gerar uma arte de benevolência, de compaixão e de pacificação, provindas do nosso interior espiritual – particularmente cristão – pacificado, seja pelo perdão dado e recebido, seja pela comunhão em Cristo e com Cristo uns para com os outros.
Afinal, a vida não se resume àquelas vertentes da «salve rainha»: ‘gemendo e chorando neste vale de lágrimas’. Que as há, há… mas não são tudo nem sequer o mais importante!




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