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A (fraca) gestão empresarial

Uma das condicionantes mais limitadoras da economia portuguesa reside, a meu ver, na deficiente gestão das empresas ligadas ao setor industrial. Depois de um quarto de século em que o país investiu milhares de milhões de euros nesse setor – os mais deles provenientes da União Europeia, integrados nos chamados “programas de coesão” –, seria de esperar que a indústria portuguesa estivesse hoje num alto patamar de produtividade e de competitividade. A verdade, porém, é que não só está longe desse patamar, como é uma das áreas da nossa economia que maiores fragilidades apresenta.

Victor Blanco de Vasconcellos
26 Set 2013

Ora, se dinheiro não faltou, ao longo dos últimos 25 anos, para modernizar a nossa indústria – onde residirá o problema da nossa fragilidade nesse setor? Onde se encontra o “calcanhar de Aquiles” da nossa indústria, que faz dela tão débil a ponto de estar a contribuir sobremaneira para a fraca prestação da economia nacional?
Há quem afirme perentoriamente que isso se deve à insuficiente preparação e formação dos trabalhadores portugueses. Não creio, todavia, que esteja aí o “busílis” da questão. E isto porque os operários portugueses, quando inseridos em processos e modelos de produção internacionais – designadamente por via da emigração –, conseguem alcançar altos níveis de prestação produtiva, quer em termos de quantidade, quer em termos de qualidade. Isto é, aliás, vulgarmente reconhecido pelas multinacionais que empregam trabalhadores emigrados de Portugal. Aliás, é comum salientar-se, mesmo dentro das nossas fronteiras, a “circunstância” de os emigrantes portugueses serem dos trabalhadores mais requisitados pelas empresas desses países, em razão da sua dedicação ao trabalho e da sua capacidade de contínua adaptação aos novos (e sempre evolutivos) sistemas, modelos e processos de produção qualificada.
Julgo, por isso, que o “problema” nuclear da indústria portuguesa reside noutro plano – ou seja: no plano da deficiente gestão das nossas empresas industriais.
Na verdade, mais do que na insuficiente preparação dos trabalhadores, o tecido empresarial português sofre de uma deficiente preparação/formação dos empresários e dos gestores. E isto porque a maioria destes ainda não foi capaz de se “modernizar”, de se adaptar aos novos tempos, de se deixar “permeabilizar” pelos mais modernos sistemas de gestão e de “marketing” – áreas que fazem evoluir as empresas e a qualidade dos seus produtos.
É certo que a maioria das empresas industriais do nosso país, sobretudo as de pequena e média dimensão, têm as suas raízes nas chamadas “empresas familiares”, erigidas por pessoas que, sem prejuízo de serem empenhados trabalhadores, apresentavam índices de formação cultural (e empresaial) deveras deficitários. E esse “clima”, verdade se diga, ainda não mudou substantivamente. De modo que as empresas, na maioria dos casos, continuam a ser geridas “a olho” e com base na “intuição” e no esforço dos seus proprietários/gestores.
Para reduzir esta margem de impreparação, várias universidades têm apostado em cursos de Gestão de Empresas – no intuito de proporcionarem aos empresários a possibilidade de contratarem gestores com formação especializada em organização empresarial e sistemas de produção.
Mas, infelizmente, os números não mentem: a quase totalidade desses cursos universitários está “deserta” ou com um reduzidíssimo número de alunos! Porque as “saídas profissionais” são mínimas. Ou seja: os empresários continuam a apresentar insuficiências nas competências de gestão das suas empresas – e não dão emprego a quem pode superar esse problema!
Ora, enquanto assim for, dificilmente a indústria portuguesa se tornará forte e competitiva…




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