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“Vou-te fazer um desenho”

O momento de a conversa ser partilhada com desconhecidos era, enfim, chegado. Como, às vezes, sucede em diversos restaurantes, um dos comensais começou a falar com o seu interlocutor num tom bastante mais alto. Quereria, talvez, que alguém – ou, portanto, toda a gente – ouvisse o que tinha para dizer. “Vou-te fazer um desenho”, anunciou. A expressão era mais comodidade retórica do que demonstração de desdém, como posteriormente se perceberia. O primeiro traço surgiu rapidamente: “Há ricos que não têm qualquer préstimo social”. A seguir, resolveu enfatizar: “Há ricos que são prejudiciais a uma comunidade decente”.

Eduardo Jorge Madureira Lopes
22 Set 2013

No mesmo tom, prosseguiu: “Não sei se são a maioria, se são 4/5, se é 1/3. Sei que são muitos e que não perdíamos nada se eles não existissem. Se reparares, hoje, por todo o lado, impôs-se um discurso que nos apresenta sempre os ricos como benfeitores e os trabalhadores como uma carga”.

O que, depois, foi dito na audível conversa do restaurante deu a entender que, em voz sussurrada, teriam sido colocadas algumas objecções. Uma seria sobre os impostos: “Não. Não pagam impostos. Se quiseres que eu seja totalmente rigoroso, não posso dizer que haja ricos que não pagam absolutamente nada, mas tenho a certeza de que não pagam os impostos que devem”. A outra objecção estaria relacionada com empregos: “Quando as contas são feitas devidamente, os empregos que criam, se alguns criam, são em número inferior aos empregos que destroem”. Quando o primeiro comensal ia conduzir a conversa para a questão da corrupção, o telemóvel tocou. Terminada a chamada, algo aborrecido, comentou: “Os óculos não têm conserto”.

Surgira a oportunidade para o segundo comensal falar. “Fizeste-me lembrar uma história que me contaram, de um tipo que se fartou de ganhar dinheiro sem demorar uma eternidade”. A narração recorreu ao discurso directo. “Espantado sobre como teria sido possível ganhar tanto dinheiro e em tão poucos anos, um tipo qualquer perguntou ao ricaço: ‘Como é que o senhor enriqueceu assim em pouco tempo?’ E o ricaço resolveu confessar: ‘A minha fortuna foi ganha no negócio do pombo-correio’. ‘Fez, então, um grande investimento em pombos-correios. Deve ter vendido muitos’, comentou o tipo. ‘Não’, respondeu o ricaço, rematando: Era sempre o mesmo pombo-correio. Eu vendia-o e ele regressava’”.

“Há ricos assim, inventores de uns esquemas manhosos. Não gastam dinheiro e têm proveito certo”, sentenciou o narrador da história. O primeiro comensal retomou a palavra para, com uma pergunta, fazer notar que o caso corroborava o que, no início, dissera sobre a inutilidade de certos ricos: “Que utilidade acrescenta a uma sociedade um ricaço como o vendedor do pombo-correio?”. A questão serviu para introduzir um novo tópico e uma nova interrogação: “Imagina, agora, que o vendedor tinha muito sucesso a convencer vários autarcas a comprarem-lhe o pombo-correio. Do bolso de quem é que julgas tu que sai o dinheiro para esse género de despesas?”. Antes de a factura chegar, ainda houve tempo para uma derradeira observação do segundo comensal: “E se o negócio se afigurasse difícil, podia oferecer melros aos autarcas mais renitentes”. Ou, então, rematou o primeiro comensal, “podia ele próprio tratar de garantir que a mandar estariam os autarcas que lhe assegurassem a continuação da compra do pombo-correio”.




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